200 organizações da sociedade civil pedem ao BID corte de financiamento à Marfrig Global Foods

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São Paulo –  Um grupo integrado por 200 organizações da sociedade civil do Brasil e do mundo publicaram hoje (19) uma carta aberta pedindo ao Banco Interamericano e seu braço financeiro privado BID Invest que revejam um empréstimo de US$ 43 milhões  para a Marfrig Global Foods, a segunda maior produtora mundial de carne bovina. A carta adverte que o investimento “apoiará uma empresa cujas práticas provavelmente levarão ao desmatamento e às violações dos direitos humanos nos próximos anos”.

A campanha é lançada ao mesmo tempo em que mais de 500 bancos de desenvolvimento se reúnem na Itália para a Cúpula Comum de Finanças – e as mudanças climáticas serão um tema de destaque do encontro.

Um levantamento feito pela coalizão que escreveu a carta indica que os cinco maiores bancos multilaterais de desenvolvimento investiram mais de US$ 4,5 bilhões de dinheiro público em empresas de pecuária industrial na última década. O BID Invest aumentou significativamente seus investimentos em empresas do segmento nos últimos anos – de aproximadamente US$15 milhões nos seis anos entre 2011-17 para cerca de US$ 500 milhões a partir de 2018 até o presente.

O empréstimo da Marfrig, que deve alavancar mais US$ 114 milhões de financiamento, apoia o plano da empresa para acabar com o desmatamento em sua cadeia de abastecimento até 2030. Entretanto, grupos que se opõem ao empréstimo dizem que a falta de um sistema de monitoramento eficaz para toda a cadeia de abastecimento da empresa e o fracasso da Marfrig em cumprir seus compromissos passados devem desqualificá-la para receber financiamento público.

A própria avaliação interna do BID Invest adverte que o empréstimo acarreta sérios riscos ambientais e sociais, incluindo desmatamento, trabalho infantil e trabalho forçado. As operações da Marfrig foram ligadas a mais de 3.300 hectares de desmatamento ilegal entre 2017 e 2019. O BID Invest deverá anunciar sua decisão final sobre o empréstimo da Marfrig em dezembro próximo.

“Dado o aumento significativo do desmatamento na Amazônia impulsionado, em grande parte, pela produção pecuária, é inacreditável que os chamados investimentos verdes continuem a ser fornecidos a empresas como a Marfrig”, afirma Maureen Santos, da FASE, uma organização líder da sociedade civil no Brasil e signatária à carta.

Bancos de desenvolvimento

Segundo as organizações, o Grupo Banco Mundial investiu US$ 2,1 bilhões na pecuária industrial entre 2011 e 2021, principalmente por meio da Corporação Financeira Internacional. Já o Banco de Desenvolvimento da Ásia investiu US$ 833 milhões; o Banco Interamericano e seu braço financeiro privado BID Invest, US$ 712 milhões; o Banco Europeu de Investimento, US$ 55,8 milhões; e o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, US$ 940,1 milhões.

“Se os bancos de desenvolvimento levam a sério o combate à crise climática, eles devem parar de derramar bilhões de dólares de dinheiro público em uma indústria que está alimentando o desmatamento na Amazônia e é responsável por um terço das emissões globais de metano”, afirma Kari Hamerschlag, Vice-Diretor de Alimentos e Agricultura da Friends of the Earth EUA.

Segundo os autores do levantamento, estes empréstimos representam uma fração do financiamento que os bancos de desenvolvimento arremessam para o setor em contradição direta com seus compromissos de cumprir as Metas de Desenvolvimento Sustentável e o Acordo Climático de Paris. Centenas de milhões de dólares adicionais são usados para apoiar indiretamente o setor através, por exemplo, de empréstimos a empresas envolvidas na produção de ração animal.

O setor pecuário gera pelo menos 14,5% de todas as emissões de gases de efeito estufa, incluindo 32% das emissões globais de metano, enquanto a pecuária é responsável por 70% do desmatamento nos países amazônicos. A invasão da pecuária sobre florestas virgens e o uso generalizado de antibióticos nas criações também criam um fator-chave para o surgimento de doenças zoonóticas, como a Covid-19, e resistência antimicrobiana.

“Os bancos de desenvolvimento devem colocar seu dinheiro onde está sua boca. Eles devem transferir o financiamento da pecuária industrial para sistemas de agricultura agroecológica baseados em plantas e culturas mistas que apoiem os pequenos produtores, criem empregos rurais, reduzam as emissões climáticas e sejam mais resistentes diante de condições climáticas extremas”, acrescentou Hamerschlag.

(*) Com informações  da Climainfo

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