A China como destaque no desenvolvimento científico global: emerge uma disputa em P&D

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Henrique Reis (*)

Nem todas as disputas nas relações internacionais são negativas ou geram conflitos diretos, por exemplo, quando os países investem em pesquisa e desenvolvimento, buscam obter um papel de relevância e os resultados obtidos lhes atribuem poder e status. A parte positiva neste tipo de disputa é que as descobertas e inovações contribuem de forma direta para a humanidade, ou seja, quanto mais os países promovem uma corrida no campo da ciência, mais avanços surgem para as diversas áreas relacionadas à vida humana.

É comum as vezes escutarmos algumas pessoas, geralmente com caráter mais ideológico, acusarem a China de querer “dominar o mundo”, de fato a busca pelo poder e destaque é algo intrínseco das relações internacionais, já que é desejo de todos, ou pelo menos dos principais países estar em uma posição na qual possa ditar as regras. A verdade é que se a China quer “dominar o mundo”, ela não o faz com discurso, mas há décadas vem desenvolvendo ações, isso me faz lembrar aquela famosa frase que diz: “uma ação vale mais do que mil palavras.”

Recentemente foi publicada a notícia de que um relatório do Ministério de Ciência e Tecnologia do Japão, divulgado no dia 09 de agosto, informou que a China agora lidera o mundo tanto em número de artigos de pesquisa científica quanto em artigos mais citados, o que deve reforçar a competitividade de sua economia e indústrias no futuro.

As qualidades dos trabalhos científicos são medidas ao passo em que são mais citados por outros pesquisadores.  A pesquisa chinesa representou 27,2%, ou 4.744 artigos, dos que integram os top 1% mais citados do mundo, superando os EUA que publicaram 24,9%, ou 4.330 artigos, seguido pelo Reino Unido em terceiro lugar com 5,5%.

Sempre que pesquiso sobre um determinado assunto, busco fontes e opiniões nos países alvos das pesquisas, algo que me chama a atenção em tudo isso é o fato do relatório ter sido elaborado por um órgão do Japão e a notícia ter sido veiculada por lá, comento isso, pois historicamente o Japão possui uma relação mais amigável com os Estados Unidos do que com a China, o que mostra que o relatório não é tendencioso.

O Instituto Nacional de Política de Ciência e Tecnologia do ministério compilou o relatório com base em dados da empresa de análise de pesquisa Clarivate, uma empresa líder no fornecimento de insights e análises confiáveis para acelerar o ritmo da inovação, a qual que possui sede em diferentes países.  Os números representam os níveis de 2019, com base na média anual entre 2018 e 2020 para levar em conta as flutuações nos números de publicação.

O relatório foi divulgado no mesmo dia em que o presidente dos EUA, Joe Biden, sancionou o CHIPS and Science Act, uma lei que destina inicialmente US$ 50 bilhões em subsídios para fabricação de semicondutores, iniciativa considerada essencial para a disputa econômica com a China e que visa incentivar mais pesquisas.

A pesquisa científica é o motor por trás de indústrias e economias competitivas.  As atuais capacidades de pesquisa determinarão as futuras participações de mercado em inteligência artificial, tecnologia quântica e outros campos de ponta, e também podem ter um impacto direto na segurança nacional.

A China aumentou rapidamente sua presença em pesquisa avançada nos últimos anos, o país investe cerca de 2,4% do seu PIB em P&D, além de estabelecer programas de metas de autossuficiência tecnológica. Ela ultrapassou os EUA no número total de artigos científicos no relatório de 2020, depois atingindo a marca de 10% dos artigos mais citados no relatório de 2021.

A China publicou 407.181 artigos científicos em 2019, de acordo com o último relatório, ultrapassando os EUA com 293.434.  Considerando o top 10% dos artigos mais citados, a China respondeu por 26,6% das publicações, enquanto os EUA responderam por 21,1%.

“A China é um dos principais países do mundo em termos de quantidade e qualidade de artigos científicos”, disse Shinichi Kuroki, vice-diretor-geral do Centro de Pesquisa da Ásia e do Pacífico da Agência de Ciência e Tecnologia do Japão. “Para se tornar o verdadeiro líder global, precisará continuar produzindo pesquisa reconhecidas internacionalmente”, completou ele.

Segundo a reportagem da Nikkei Asia, o Japão, por sua vez, está ficando para trás.  Ele ficou em quinto lugar no número total de publicações e em 10º no top 1% dos artigos mais citados no último relatório, depois de perder terreno para a Índia.  Caiu para o 12º lugar no top 10% dos artigos mais citados, ultrapassado por Espanha e Coréia do Sul.

O número de universidades na Índia aumentou cerca de 4,6 vezes, de 243 em 2000 para 1.117 em 2018. Mais de dois milhões recebem um diploma de bacharel em ciências a cada ano.  Em contraste, a pesquisa no Japão desacelerou desde meados da década de 2000, sem recuperação à vista, alimentando preocupações sobre o efeito na economia e nas indústrias do país.

Se a China tem investido pesado, os Estados Unidos decidiram reagir e o Japão está preocupado por estar ficando para trás na corrida científica e tecnológica, o que será do Brasil se não fizer nada a respeito?

Ao olharmos para o Brasil, sem dúvidas existe um longo caminho a ser percorrido, não que não tenhamos talentos, porém necessitamos de uma escala muito maior e isso se dá com investimento pesado em educação, entenda aqui investimento não apenas o montante financeiro destinado para esse fim, entretanto a qualidade da aplicação dos recursos, ou seja, é preciso ter um critério melhor e mais claro de como e onde os valores estão sendo aplicados, para enfim fazer uma avaliação se o modelo adotado está realmente sendo eficaz.

(*) Henrique Reis – Bacharel em Relações Internacionais pela UNIFAI, Pós-graduado em Negociações Econômicas Internacionais pela UNESP e Gerente de Relações Internacionais no Grupo China Trade Center

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