A cúpula do Mercosul



Última atualização: 28 de Julho de 2015 - 17:46
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Kai Enno LehmannKai Enno Lehmann (*)

A recente cúpula dos lideres dos estados membros do Mercosul ofereceu, ao meu ver, um bom exemplo do ‘método Mercosul’ e, assim, levanta mais uma vez, uma série de perguntas sobre o futuro do bloco.

Pelo lado positivo, houve uma declaração bastante forte da presidente Dilma Rousseff a favor do objetivo principal do bloco, a criação de uma união aduaneira entre os estados membros. Com isso, o Brasil se juntou firmemente aos dois menores sócios – Uruguai e Paraguai – em defesa do livre comercio entre os parceiros do bloco. Isso é muito bem vindo e, mais uma vez, mostra que Dilma tem a capacidade de assumir uma posição quando quer, o que, infelizmente em assuntos de políticas externas, não acontece com a frequência desejada.

Infelizmente, como quase sempre em relação ao Mercosul, existe sempre um ‘porém’ e, mais uma vez, esse ‘porém’ concerne a Argentina.

Com forte apoio argentino, as várias exceções à respeito da livre circulação dos bens entre os membros do bloco, foram prorrogadas mais uma vez, até 2021 para os dois países grandes (o Brasil e a Argentina) e até 2023 para os dois pequenos, Paraguai e o Uruguai. Embora seja completamente compreensível que haja um processo gradual na implantação da união aduaneira entre os membros do bloco, particularmente levando em consideração os problemas econômicos pelos quais vários países estão passando, sempre fica um sabor de ‘de novo’ e a incerteza se a prorrogação desses prazos pela ‘última vez’ realmente será a ultima vez.

Essa incerteza se dá também pelas circunstâncias nas quais alguns dos estados membros estão se encontrando politicamente. Começando pelo próprio Brasil, tenho as minhas dúvidas se o fortalecimento do Mercosul, ou de qualquer outra iniciativa regional, realmente tenha prioridade para Dilma diante de um cenário de uma crise interna que vai bem além do péssimo estado de economia. A crise de governabilidade pela qual a presidente está passando não mostra sinais de se acalmar e pode, de fato, piorar caso, por exemplo, as contas do governo, sejam rejeitadas pelo Tribunal de Contas da União, sem falar da ainda existente possibilidade de impeachment da presidente em consequência da operação ‘Lava Jato’.

A Argentina, por sua vez, terá eleições presidências esse ano e, seja quem for o novo líder, enfrenta uma economia em crise e um país profundamente dividido politicamente. Em outras palavras, para a Argentina, também, o Mercosul não vai ser uma prioridade política.

Temos também eleições parlamentares na Venezuela e, ao contrário da Argentina, as divisões politicas nesse país, parecem ter a capacidade de causa uma implosão do mesmo a qualquer momento. Com uma economia devastada e uma desconfiança profunda entre os dois lados políticos, a realização das eleições de forma razoavelmente limpa e a aceitação do resultado pelo lado perdedor já seria um avanço significativo. Tendo dito isso, é bem possível que as atenções da região se voltam para a Venezuela com mais intensidade em breve, com papeis chave para países vizinhos que não fazem parte do Mercosul.

De fato, houve outras tensões políticas em relação à Venezuela, expostas quando o presidente venezuelano NicolásMaduro reagiu mal ao encontro da presidente Dilma com o presidente de Guiana à margem da cúpula, país com o qual a Venezuela tem uma disputa territorial. Em protesto contra o que ele considerou uma interferência do Brasil num assunto político e estratégico particular que a Venezuela tem com um dos seus vizinhos e uma falta de solidariedade, Maduro não participou de um almoço dos lideres do Mercosul.

Diante do exposto acima, me parece claro que muitos dos países da América do Sul estão prestando muito mais atenção aos problemas domésticos do que às questõesregionais. Mais ainda, me parece que, ao contrário da União Europeia historicamente falando, ainda não existe um senso muito desenvolvido de que organizações regionais possam – e devam – assumir um papel importante na resolução de problemas considerados domésticos, sejam eles de natureza política ou econômica. Ao contrário, às vezes, os blocos regionais são vistos como problemas e não soluções.

Sendo assim, o mais provável cenário para o Mercosul daqui para frente é que ele continue patinando lentamente  e sem um rumo claro, ou seja, tudo fica como está.

(*)  Possui Graduação (BA) em Política -The University of Liverpool (1998), Mestrado (MA ) em Políticas da União Européia- The University of Liverpool (1999) e Doutorado (PhD) em Relações Internacionais – The University of Liverpool (2010). Atualmente é Professor de Relações Internacionais na Universidade de São Paulo (USP) após 4 anos na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Tem experiência na área de Ciências Política, com ênfase em Política Internacional, atuando principalmente nos seguintes temas: políticas externas, complexidade e integração regional, com foco específico na União Europeia e na América do Sul.

 

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