Afinal, o que vai ser da América do Sul?



Última atualização: 7 de Março de 2015 - 10:34
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Kai Enno LehmannKai Enno Lehmann (*)

Há cerca de um ano atrás, em meu primeiro artigo para esse site, proclamei 2014 um ‘ano crucial para o Mercosul’. Argumentei que a organização tinha que decidir o que vai querer ser, em que direção gostaria de ir, em termos políticos e econômicos.

Resumindo o ano que passou e tentando fazer algumas previsões para 2015 e além, a situação do Mercosul está mais preocupante do que nunca. Pior, mesmo fora do âmbito dessa organização em plena decadência, as perspectivas da América do Sul dentro do cenário internacional pioraram bastante.

Em termos básicos, estamos testemunhando um processo de fragmentação que coincide com – e incentiva – um processo de retração de alguns dos principais países da região, inclusive e, talvez, principalmente o Brasil.

Vamos começar pelo processo de fragmentação.

Alguns países da América do Sul estão indo razoavelmente bem, entre eles o América do Sul, o Uruguai e, em alguns aspectos, a Colômbia. Outros – principalmente a Venezuela e a Argentina – estão com uma série de problemas tanto econômicos, quanto políticos. Outros ainda, principalmente o Brasil, estão, eu diria, enfrentando tempos difíceis, sem que essas dificuldades sinalizem o iminente colapso da ordem política, social ou econômica. Mas, certamente, os sinais de alerta estão ligados e uma época de ‘apertar os cintos’ está por vir (provavelmente).

Diante dessas diferenças, a falta de progresso em termos de uma integração econômica mais ampla, em termos de cooperação em torno de assuntos de interesse comum são, ao mesmo tempo, compreensível e frustrante, pois, diante das dificuldades econômicas que a região está enfrentando, áreas de interesse comum não deveriam faltar.

Entre essas áreas, o investimento em infraestrutura regional me parece uma das mais óbvias. Mesmo depois de 20 anos de, falando de uma maneira geral, progresso econômico, ainda é extremamente caro viajar de um ponto para outro neste continente. O transporte de produtos é igualmente caro, com reflexos imediatos para o consumidor. Além disso, temos grandes desafios sociais e ambientais em comum, sejam eles a educação, a contínua pobreza de parcelas significativas da população etc.

Além desses desafios gerais, existem também situações particulares com claras implicações regionais: Entre elas, temos a instabilidade na Argentina em todos os sentidos, as profundas divisões políticas e o caos econômico na Venezuela e as negociações de paz entre o governo e as FARC na Colômbia que, independentemente de uma conclusão positiva ou não, terão um impacto em toda a região.

Mas o que se vê é um processo de desfazer as estruturas regionais que pelo menos existiam para lidar com esses tipos de assuntos. Fala-se abertamente agora sobre a possibilidade de a União Europeia negociar sobre cooperação comercial e política individualmente com países países-membros, ao invés de faze-lo com o Mercosul como um bloco, talvez usando o acordo fechado com a Colômbia como exemplo. Igualmente, depois de algumas tentativas da Unasul de mediação no conflito interno na Venezuela, os atores regionais basicamente saíram de cena.

Esses fracassos também são reflexo de um processo de retração de vários países da região vis-à-vis não somente a esses assuntos, mas também diante dos inúmeros problemas internacionais.

É lamentável, a meu ver, que o Brasil lidere essa postura. Com grandes preocupações econômicas internas, um enorme escândalo de corrupção a resolver e sem ter mostrado muito interesse na política externa de um modo geral (algo refletido também no crescente isolamento do Itamaraty), a presidente Dilma Rousseff simplesmente não se pronuncia sobre os problemas mencionados acima, nem sobre qualquer outro. O Brasil parece estar mudo.

Para ser justo com o governo, o silêncio brasileiro não é uma exceção na região mas a regra quando se trata dos assuntos internacionais. Como o meu colega Oliver Stünkel constatou outro dia em outro artigo, é notável que a América do Sul não tenha nenhum representante na Conferencia de Segurança Internacional de Munique, sem dúvida a mais importante conferencia sobre a segurança e assuntos internacionais contemporâneos do mundo, um fato lamentável e altamente contraproducente se levarmos em consideração as antigas intenções de aumentar a presença e a influencia da região no mundo.

Somando esses fatos, temos que constatar que a América do Sul está ausente politicamente. Não existe uma organização ou estruturas regionais que possam articular e avançar os interesses da região vis-à-vis o resto do mundo, e não temos vontade por parte de pelo menos alguns países da região de participar dos debates sobre os problemas do mundo atual e exercer algum tipo de influência sobre os mesmos.

Em outras palavras, a questão para 2015 não será como salvar uma organização regional ou outra da irrelevância, mas algo mais básico: existem interesses comuns entre os estados sul-mericanos? Se existem, como esses interesses podem ser definidos e defendidos?  Existe, de fato, uma política externa para e da América do Sul?

Esse debate é urgente mas não tenho muita esperança que ele vai, realmente, ocorrer.

(*)  Possui Graduação (BA) em Política -The University of Liverpool (1998), Mestrado (MA ) em Políticas da União Européia- The University of Liverpool (1999) e Doutorado (PhD) em Relações Internacionais – The University of Liverpool (2010). Atualmente é Professor de Relações Internacionais na Universidade de São Paulo (USP) após 4 anos na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Tem experiência na área de Ciências Política, com ênfase em Política Internacional, atuando principalmente nos seguintes temas: políticas externas, complexidade e integração regional, com foco específico na União Europeia e na América do Sul.

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