As bolhas ideológicas da quarentena

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Renan Diez (*)

A pandemia nos levou a uma quarentena de isolamento. Alguns de nós estão sozinhos em casa ouvindo sua voz ressoar no eco de seus próprios pensamentos. O convívio social do mundo off-line está restrito. No entanto, antes mesmo disso tudo, muitos já estavam isolados em suas próprias bolhas no ambiente online.

Na vida fora das telas há mais diversidade, mais diálogo e bem menos animosidade. No mundo online, os algoritmos das redes sociais nos enviam publicações baseadas no que consumimos, acreditamos e compartilhamos. Um ciclo vicioso e fechado de pensamentos singulares. Nessa bolha ideológica, o terreno é fértil para a radicalização.

O mundo em uma bolha ideológica é um mundo sem diálogo, em que as pessoas não sabem debater. Quando surgem ideias contrárias, normalmente há discussões mais ríspidas, talvez até brigas, justamente, pelo costume de não se permitir ouvir, não se permitir mudar, não se permitir conviver.

Um mundo sem abertura ao diálogo não se desenvolve. Imaginem a falta de diálogo nas relações internacionais. É imprescindível conhecer os aspectos históricos, políticos, a economia e a cultura de cada país que se pretenda negociar. É impossível conduzir uma negociação e fechar acordos entres empresas, governos ou pessoas de diferentes países sem o desprendimento da sua bolha. Isso é o comércio exterior.

A radicalização é suicídio nas relações internacionais. Estranho seria idealizar um Diplomata ou um Embaixador que não seja capaz de manter boas relações com outras nações, salvo excepcionalidades.

O mundo globalizado tende a ser cosmopolita. Agregar faz mais sentido do que segregar. O Brasil ainda deve melhorar sua maneira de se relacionar com o mundo e expandir seus negócios com países que agreguem valor, sem descuidar dos mercados já conquistados.

Nossa política externa não pode ser pautada pelo viés ideológico. Já sofremos isso no passado recente e não podemos nos permitir sofrer novamente. Entre as bolhas do “e daí” e do “ainda bem”, essencial é sabermos que o comércio exterior não dá frutos em solos radicais.

(*) Renan Rossi Diez. Diretor na Intervip Comércio Exterior. Graduado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas; Pós-Graduado em Administração de Empresas e MBA em Gestão de Comércio Exterior e Negócios Internacionais pela IBE-FGV Campinas. Autor do livro Minuto Comex. Contato: renan@portalintervip.com.br

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