Brasil depende da aprovação dos EUA para se posicionar sobre adesão à Nova Rota da Seda, diz AEB

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Da Redação

Brasília – O governo brasileiro não tem nenhuma condição de assumir uma posição a respeito da adesão do país à iniciativa chinesa da Nova Rota da Seda sem  ter que, antes, pedir a opinião dos Estados Unido. Somente após os Estados Unidos dizerem que sim ou não é que se terá uma resposta do Brasil.

A opinião foi dada ao Comexdobrasil.com por José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) em entrevista exclusiva via WhatsApp,  ao analisar as gestões realizadas pelo governo do presidente da Argentina, Alberto Fernández, em contato telefônico na semana passada com o presidente Xi Jinping, para tratar da adesão formal argentina ao megaprojeto de infraestrutura e financiamento que vem sendo implementado por Pequim.

Na visão do presidente da AEB,  “A atuação da China tentando se aproximar do Mercosul ou da América do Sul é uma coisa natural, sob o aspecto comercial. Para se posicionar em relação a esse tema relevante, o Brasil precisa do beneplácito americano. Neste momento, o governo brasileiro não vai tomar nenhuma posição que possa significar uma aproximação com a China em detrimento de suas relações com os Estados Unidos. Dependendo do resultado das eleições de 3 de novembro nos Estados Unidos, pode ser que o Brasil mude alguma coisa, mas no momento atual, primeiro o Brasil vai ouvir os Estados Unidos”.

José Augusto de Casto defende como “natural” a busca pela Argentina de uma maior aproximação com a China através da participação na Nova Rota a Seda. “Se o relacionamento com o Brasil está muito difícil, é claro que a Argentina tem que buscar outras alternativas, porque se  ficar parada, dependendo do Brasil, a sua situação (da Argentina) que já não é boa, ficará ainda pior. Acho perfeitamente natural que, não tendo nenhuma possibilidade concreta em seu entorno geográfico, que a Argentina procure buscar um caminho próprio”.

Os sucessivos processos envolvendo as principais empresas construtoras brasileiras em gigantescos rumorosos casos de corrupção não apenas no Brasil mas nos países vizinhos e também da África, acabaram por alijar as empreiteiras nacionais da participação nas licitações de obras realizadas nesses países, contribuindo também para fortalecer a presença da China na exportação desses serviços.

Para o presidente da AEB, “depois das apurações realizadas pela Lava Jato, o Brasil passou a ter grandes dificuldades de atender obras de infraestrutura não só na Argentina como em qualquer outro país. Nós perdemos esse bonde. Para recuperá-lo vão se passar muitos anos até que o Brasil volte a ser um exportador de serviços de engenharia e principalmente de obras de infraestrutura. Essa é a realidade. Lamentamos muito perder essa oportunidade e principalmente saber que tínhamos conquistado esse mercado não só na Argentina mas também em outros países da América do Sul, e agora estamos assistindo a outros países ocupando esse espaço”.

Além de perder espaços na exportação de serviços, vácuo que mais cedo ou mais tarde acabará sendo preenchido pelos chineses, a integração plena da Argentina à Nova Rota da Seda pode acabar fazendo  com que, em médio prazo, a China conquiste, definitivamente, o posto de principal parceiro comercial da Argentina, que ocupou durante alguns meses em 2020 e que acabou perdendo para o Brasil no mês de agosto, de acordo com dados do  Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (INDEC) vinculado ao Ministério da Economia da Argentina.

A percepção de José Augusto de Castro é de que “isso pode acontecer de uma hora para outra porque, sabidamente, a China vai agir o mais agressivamente possível para conquistar esse mercado e nós sabemos que quando a China toma esse tipo de decisão de conquistar um mercado, normalmente acaba passando por cima de tudo  que é dificuldade para atingir seus objetivos. E eventualmente o governo chinês tem concedido algum tipo de facilidade para as empresas em defesa de seus interesses. Essa é uma realidade com a qual temos que nos acostumar e saber que a China está presente”.

Crítico severo de algumas posições assumidas pelo governo de Jair Bolsonaro em matéria de política internacional –e especialmente no tocante à China- e que podem ter sérios reflexos no comércio exterior brasileiro, José Augusto e Castro declara que “vai chegar a hora em que o Brasil terá que deixar de lado divergências individuais e buscar maior convergência com países mais próximos.O interesse nacional, e não apenas no plano retórico, tem que estar acima de  tudo.  Em um momento vamos ter que pensar comercialmente e mudar algumas posições que temos adotado hoje”.

Buscando ser mais explícito, o presidente da AEB projeta que, no tocante ao relacionamento com a Argentina, “o Brasil vai ter que assumir uma posição no prazo mais curto possível, porque o comércio brasileiro com a América do Sul, e mais especificamente com a Argentina, tem sofrido quedas muito fortes nos últimos anos. A Argentina é o principal mercado para os produtos manufaturados brasileiros e hoje a gente fala da Argentina como se fosse um país qualquer, o que não o é”.

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