Brasil e China devem desenvolver padrões comuns para financiar agronegócio sustentável

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Rio de Janeiro – Brasil e China devem adotar critérios comuns para a classificação de projetos de agropecuária de baixo carbono que podem receber financiamentos vinculados ao combate dos efeitos da mudança climática, defenderam participantes do 2º Diálogo Brasil-China sobre Agricultura Sustentável, realizado nesta terça-feira, 3 de agosto. Organizado pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) e o think tank chinês Institute of Finance and Sustainability (IFS), o evento reuniu representantes de governos, instituições financeiras e entidades ambientais dos dois países e da Europa, além de executivo do Novo Banco de Desenvolvimento, o banco dos BRICS. O diálogo foi patrocinado pela Bayer.
Presidente do IFS, o economista chinês Ma Jun ressaltou que já existe um “consenso” entre China e União Europeia para adoção de uma taxonomia comum de finanças sustentáveis em relação a 70 itens, incluindo no setor agrícola. “Brasil e China podem avançar em uma taxonomia comum, com padrões que permitam que o financiamento à agricultura sustentável seja mais fluído”, disse Ma Jun. Secretário-adjunto de Política Agrícola do Ministério da Agricultura do Brasil, José Ângelo Mazzilo Júnior declarou ver com “entusiasmo” o desenvolvimento de uma taxonomia bilateral, que poderia ser aplicada a outras áreas do comércio Brasil-China além da agricultura.

Hsia Hua Sheng, vice-presidente do Banco da China no Brasil defendeu que essa harmonização de padrões ocorra em âmbito internacional, e não apenas bilateral. Segundo ele, o Brasil poderia, por exemplo, se unir à iniciativa de adoção de uma taxonomia comum entre a China e a União Europeia, que é outro grande parceiro do agronegócio brasileiro. “Uma taxonomia unindo China, União Europeia e Brasil seria o melhor cenário, porque dessa forma não será necessário trabalhar com padrões diferentes. Isso facilitaria muito a concessão de empréstimos, e mais investidores e bancos internacionais participariam desta iniciativa.”

Na opinião de Taciano Custódio, head de Sustentabilidade do Rabobank no Brasil, a produção agrícola brasileira já adota uma série de práticas sustentáveis que poderiam servir de base para a construção de critérios comuns entre os dois países. Entre elas, mencionou o plantio direto, o uso de biofertilizantes e o equilíbrio e redução de fertilizantes químicos. “É bom lembrar que 100% da soja plantada no Brasil já é de baixo carbono.”
Além do desenvolvimento de uma linguagem comum, a concessão de financiamento à agropecuária de baixo carbono passa pelos desafios do monitoramento e da certificação da produção, observou Luiz Augusto Guimarães, diretor de Controle de Crédito, Jurídico, Produtos e Compliance do banco BOCOM BBM. Para avaliar os pedidos de crédito e acompanhar a observância das condições, o BOCOM BBM usa os serviços de uma empresa de sensoriamento remoto que dá informações sobre a evolução do uso da propriedade nos últimos dez anos, ressaltou. As checagens são completadas por vistorias in loco e o uso de base de dados públicos que permitem verificar eventuais violações ambientais.

Na avaliação de Guimarães, a chegada do 5G e a consequente ampliação da conectividade no campo darão escala e reduzirão o custo de observância da implementação dos projetos, com potencial aumento do fluxo de financiamento à agricultura de baixo carbono.
 
O avanço tecnológico também será fundamental para o enfrentamento de outro problema, apontado por Rodrigo Lima, diretor-geral da Agroicone: “Nós temos o desafio fabuloso de integrar 4 milhões de pequenos produtores rurais e trazê-los para a produção sustentável, produção que adote tecnologia, adote inovação, que tome crédito e que produza mais, reduzindo impactos, reduzindo a necessidade de área e maximizando produção e reduzindo emissões.”
Jayme Pinto Júnior, diretor de Comércio Exterior e Corporate Bank do Banco do Brasil, destacou o papel do financiamento na transformação do agronegócio. “O crédito rural pode ser uma ferramenta para alavancar a agropecuária sustentável, acelerando a transição para a economia verde, com maior produtividade e renda, segurança alimentar, resiliência às mudanças do clima, emissões reduzidas de carbono, entre outros benefícios.” E complementou: “A redução do desmatamento na agricultura está entre as principais ambições para o setor. Nesse contexto, a expectativa é que cadeias produtivas como soja e pecuária, contem com instrumentos financeiros que incentivem uma atividade mais sustentável, a restauração dos ecossistemas e um melhor aproveitamento dos recursos.”

O apetite pelas redes verdes é crescente na China e há oportunidades infinitas para a cooperação em sustentabilidade entre Brasil e China, ressaltou Sean Kidney, CEO da Climate Bonds Initiative, entidade que mobiliza recursos para investimentos em projetos de redução de emissões e mitigação dos efeitos da mudança climática. “Existe na China um fetiche por sustentabilidade”, afirmou. Em sua opinião, o Brasil pode usar esse cenário para vender commodities de maior valor agregado, que propiciam retornos mais elevados.

A The Nature Conservancy atua na elaboração de códigos de conduta para produtores e instituições financeiras que estimulam a concessão de créditos a projetos de baixo carbono. “A pecuária brasileira é produzida abaixo do seu potencial e é possível mudar isso com técnicas desenvolvidas pela Embrapa, de intensificação sustentável da pecuária, onde com menos área é possível aumentar em três vezes a produtividade da pecuária do Brasil”, disse Anna Lucia Horta, diretora de Finanças e Investimentos Sustentáveis da entidade.

Apesar de o mandato do Novo Banco de Desenvolvimento ser focado no financiamento de infraestrutura, o “principal” da organização multilateral nas Américas, Mauricio Piccinato Xavier, observou que há um impacto indireto sobre a agricultura sustentável. “O NDB pode financiar rodovias e pode financiar portos. De nada adianta ter uma produção agrícola eficiente, mas na hora de escoar ficar com caminhão na fila do porto gastando diesel. Nosso papel é atuar de forma complementar a outros bancos que são especialistas no setor agro.”

O presidente do CEBC, embaixador Luiz Augusto de Castro Neves, observou que o evento do dia 3 era uma continuidade do 1º Diálogo Brasil-China sobre Agricultura Sustentável, realizado há pouco mais de um ano, cujas conclusões foram aproveitadas no documento “Sustentabilidade e Tecnologia como Bases para a Cooperação Brasil-China”, lançado pelo CEBC em outubro. Segundo ele, o texto forneceu subsídios à VI Reunião da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (COSBAN), realizada em maio.

Os painéis do evento do dia 3 foram moderados pela diretora executiva do CEBC, Cláudia Trevisan, e a vice-presidente do IFS, Bai Yunwen.

(*)  Com informações do CEBC

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