Brasil quer debater diversificação da pauta exportadora para a China em reunião de Comissão de Alto Nível

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Brasília –  A Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban) estará reunida no próximo dia 23 de maio, em formato virtual, e deverá ser marcada pela defesa, pela parte brasileira, da necessidade de diversificação da pauta exportadora nacional, fortemente concentrada em produtos básicos de menor valor agregado. Principal parceiro comercial do Brasil, a China concentra suas importações em commodities e apenas três delas -soja, petróleo e minério de ferro- responderam por 79% do volume total embarcado pelas empresas brasileiras ao país asiático no primeiro quadrimestre de 2022.

José Ricardo dos Santos Luz Junior, CEO do LIDE China

Aumentar a participação de bens industrializados nos embarques para a China é considerada pelo governo brasileiro uma das grandes prioridades a serem abordadas na reunião da Cosban e segundo José Ricardo dos Santos Luz Júnior (CEO do LIDE China), o país asiático sempre se dispôs a debater esse tema. Segundo ele, “todos sabemos que existe esse déficit em relação à qualidade da balança comercial sino-brasileira e nos últimos anos esses três produtos chegaram a responder por até 90% das exportações totais para o mercado chinês. O Brasil tem apresentado esse pleito e a China  se mostra favorável a melhorar essa relação”.

 

Sintonia pró-diversificação da pauta exportadora brasileira

O CEO do LIDE China destaca que  a ata da 5ª.  Reunião Plenária da Cosban, de 23 de maio de 2019 informa que “as partes acordaram fortalecer as trocas bilaterais e a cooperação em todas as áreas. Promover a facilitação do comércio, buscar o crescimento de alta qualidade do comércio bilateral, expandir a cooperação e inovação, incentivar novas áreas no âmbito da cooperação econômico-comercial. Reconheceram a excessiva concentração das exportações brasileiras para a China em um grupo específico de produtos primários, bem como o superávit do Brasil, e reafirmaram seu compromisso de criar condições para a diversificação e o aumento do valor agregado dos produtos vendidos pelo Brasil para a China”.

Após sublinhar a existência da indispensável vontade política de diversificar a pauta exportadora para a China, José Ricardo dos Santos Luiz Júnior afirma que “para que isso aconteça, o Brasil precisa fazer o seu dever de casa, dizer claramente o que quer da China, porque a China sabe muito bem o que quer do Brasil. E sempre repito que a  China nunca olha o Brasil sob o prisma de um mandato presidencial de quatro anos, mas, sim, com uma visão de largo prazo. A China sabe que o Brasil é um parceiro importante e tem interesse em realizar investimentos de longo prazo no País”.

Em sua análise sobre a pretensão brasileira de aumentar a participação dos produtos industrializados no escopo das vendas para a China, o especialista ressalta que “precisamos ser muito realistas. Não adianta falar em melhorar a pauta comercial e pensar em exportar carros, aparelhos de televisão ou celulares para a China, porque não temos competitividade nesses setores. Temos valor agregado no campo, no agronegócio. Então, temos que identificar as nossas forças, nossos pontos fortes, para vero que pode ser feito para melhorar e diversificar a pauta exportadora para a China”.

A reunião da Cosban, a ser realizada dentro de uma semana, “deverá acender essa chama entre o Brasil e a China”. Principal mecanismo diplomático de coordenação e diálogo entre os dois países, a Comissão deverá promover o lançamento de dois importantes documentos. Um é o plano estratégico, que destinado a balizar a cooperação bilateral nos próximos dez anos. O outro, com duração de cinco anos, é o plano executivo que servirá para  identificar os pontos de uma agenda comum a vigorar até 2027, indicando setores e projetos e compromissos a serem assumidos, além de designar os órgãos responsáveis pelo seu acompanhamento.

 

Uma agenda prejudicada por declarações e posturas anti-China

Tito Sá, Consultor de Comércio Internacional da BMJ Consultores Associados

Na percepção de Tito Sá, Consultor de Comércio Internacional da BMJ Consultores Associados, “o lançamento desses planos mais do que significar uma intensificação de laços entre Brasil e China, visa renovar as versões anteriores, cujos prazos já estão vencidos. A expectativa é que os planos contemplem programas de investimentos dos dois países, com foco no setor de infraestrutura”.

Mas o Consultor da BMJ faz uma ressalva:  “a questão central a ser desvendada é se esses planos gozam de viabilidade econômica e, principalmente, política. Seguramente, as eleições em outubro, no Brasil, têm potencial de impactar positiva ou negativamente as relações Brasil-China. Em caso de vitória do ex-presidente Lula da Silva, a partir de uma análise histórica, pode-se esperar uma tentativa de fortalecimento das relações com o gigante asiático. Em caso de renovação do mandato do presidente Jair Bolsonaro, elevam-se as incertezas”.

Tito Sá considera “inquestionável” que o fortalecimento das relações sino-brasileiras se deu, sobretudo, durante os governos petistas, “muito ancorado pela nova orientação da política externa brasileira, voltada à cooperação Sul-Sul, mas, se deu, também, em um período de maior abertura comercial por parte da China, cujo marco é sua adesão à Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001”.

Ele lembra ainda que “é imprescindível notar que a política externa chinesa é orientada por uma estratégia e longo prazo, sendo essa uma de suas características elementares. Nesse sentido, ainda que as relações com o Brasil tenham se fortalecido durante os governos do PT, esse relacionamento em nada foi abalado durante o governo do ex-presidente Michel Temer”.

O analista cita como exemplo a criação, em 2015, do Fundo Brasil-China, ainda durante o governo de Dilma Rousseff e que tinha como objetivo a expansão da capacidade produtiva. A institucionalização do Fundo se deu em 2017, durante o governo de Michel Temer. Alguns projetos na área de infraestrutura foram cogitados para receber aportes desse mecanismo, mas isso nunca aconteceu. Segundo Tito Sá, “ademais da crise econômica e da volatilidade cambial, o fator político certamente contribuiu para sua inatividade”.

E se o clima já não era favorável, as incertezas só fizeram crescer depois que Jair Bolsonaro assumiu a presidência da República, em 2019. De acordo com Tito Sá, “já à época das eleições, em 2018, Bolsonaro posicionava-se contrariamente aos chineses, acusando-os, por exemplo, de terem um plano para comprar o Brasil. Posteriormente à posse, integrantes da família do presidente se referiram ao vírus da Covid-19 como ‘vírus chinês’, o que provocou sinais de crise diplomática. Sob uma postura de alinhamento total e axiomático com os Estados Unidos, de Donald Trump, as relações do Brasil com o gigante asiático passaram por momentos conturbados nestes últimos anos. Não fosse a estratégia de longo prazo uma característica da atuação política de Pequim, as relações Brasil-China talvez estivessem bem piores”.

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