China tem espaço para o crescimento das exportações de café e calçados, projeta o InvesteSP

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Brasília – Soja em grãos, minérios de ferro e petróleo, os três principais itens da pauta exportadora brasileira tiveram na China o seu principal país de destino entre os meses de janeiro e agosto, como vem acontecendo há alguns anos. E o apetite chinês por produtos brasileiros alcança outros itens, como a carne bovina e celulose, que também têm no gigante asiático um mercado cada vez mais relevante e atraente.

Mas existem diversos outros bens exportados pelo Brasil e que ainda não têm a China como cliente importante e que poderão alcançar um aumento expressivo das vendas para o país asiático, como o café cru e torrado e os calçados.

Segundo José Mário Antunes, Diretor do Escritório do InvesteSP em Xangai, “o mercado do café é um dos melhores exemplos de oportunidades que o Brasil tem a explorar na China, assim como também acontece em relação às exportações de calçados, um mercado gigantesco que tem na China o maior exportador e também o principal importador mundial”.

China tem espaço para o crescimento das exportações de café e calçados, projeta o InvesteSP
José Mário Antunes, diretor do Escritório em Xangai/ Divulgação YOUTUBE/Invest SP

Após destacar que o acesso ao mercado chinês é bastante complexo e depende do tipo do produto, José Mário Antunes revela que “esse processo começa sempre com uma manifestação de interesse do governo brasileiro ao governo chinês em exportar um determinado produto. A partir daí são vários passos a serem dados e dentre as três formas possíveis de acesso ao mercado chinês –protocolo societário, pre-listing e acesso facilitado- o café se enquadra na categoria de acesso facilitado. Então, não há nenhuma restrição de acesso do café brasileiro ao mercado chinês e existe um grande potencial de aumento das exportações”.

Um mercado promissor para o café

Com uma população de 1,4 bilhão de pessoas, a China é, tradicionalmente, uma grande consumidora de chá, mas aos poucos os chineses vão se habituando a tomar café e a preferência é pelo café solúvel, que responde por mais de 50% do consumo total no país. O consumo de café solúvel vem crescendo de uma forma significativa e também é registrada uma alta importante no consumo do café em grãos.

De acordo com o Diretor do Escritório do InvesteSP em Xangai, “nos últimos anos, o faturamento global do café vem crescendo de forma exponencial e está na casa de US$ 400 bilhões ao ano. A participação chinesa nesse mercado é crescente e o potencial de crescimento é significativo. E é muito fácil entender os motivos: o hábito de tomar chá faz parte da cultura milenar chinesa e a migração de consumidores para o café se dá através do produto solúvel. O chinês consome apenas um quilo de café por ano, enquanto o brasileiro consome sete e o americano consome cinco quilos anuais do produto”.

Mas se o mercado chinês de café é relevante, a participação brasileira ainda é quase inexpressiva. De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Economia, nos oito primeiros meses deste ano, as exportações brasileiras de café em grãos geraram uma receita de US$ 2,959 bilhões (queda de 1% em relação ao mesmo período de 2019) e as vendas para a China foram de pouco mais de US$ 12 milhões, equivalentes a residuais 0,39% do total exportado.  O Brasil, maior produtor e exportador mundial, é o quarto maior exportador para a China, atrás da Malásia, Vietnã e Itália.

E em relação ao café torrado, de maior valor agregado, a participação brasileira no mercado chinês é ainda menor. De janeiro a agosto, as vendas externas do produto somaram US$ 373 milhões e as exportações para a China se limitaram a US$ 1,2 milhão, correspondentes a 0,33% da comercialização do produto brasileiro em todo o mundo.

Os números indicam que o mercado chinês tem dimensões impressionantes e que existem espaços importantes a serem conquistados pelo exportador brasileiro e o Diretor do InvesteSP destaca que a diferença entre as tarifas cobradas pela China em relação ao café em grãos e o café torrado é um obstáculo aos esforços visando agregar valor às exportações do café para a China.

José Mário Antunes lembra que “o café verde é tributado em 8% enquanto o café torrado sofre uma taxação de 14%. Além dessa escalada tarifária, existe a questão do tempo de transporte do produto entre o Brasil e a China. O café premium do Brasil torrado e exportado via marítima demora 45 dias para chegar à China e nesse tempo acaba perdendo o frescor e já deixa de ser considerado um café especial. Apesar disso, nossa recomendação aos produtores e exportadores é no sentido de não deixarem de exportar o café verde mas, ao mesmo tempo, de buscar algum espaço para o produto torrado, de maior valor agregado. Contribuir para a diversificação da pauta exportadora e agregar valor às exportações são alguns dos grandes objetivos do Escritório do InvesteSP”.

Calçados: maior exportador e importador mundial

Ampliar as exportações de café para a China não é tarefa fácil mas pode ser alcançada progressivamente e o mesmo, ainda que em circunstâncias distintas, se aplica às vendas de calçados para o mercado chinês. A principal diferença reside no fato de que, ao contrário do que acontece em relação ao café,  a China é o maior produtor, exportador e importador mundial de  calçados.

Segundo José Mário Antunes, “ quase metade do mercado mundial de calçados é de responsabilidade da China. Mas a produção calçadista no país asiático vem diminuindo nos últimos anos porque o governo chinês tem uma política de desenvolvimento industrial que privilegia os setores de tecnologia intensiva, como a indústria de semicondutores, em que o país é muito dependente, as indústrias de inteligência artificial, telecomunicações, IOT (Internet das Coisas). Com a implantação dessa política seletiva, a China tem exportado suas indústrias têxteis e de calçados para países do Sudeste Asiático”.

A transferência da produção de calçados para países vizinhos como o Vietnã e Malásia é facilmente perceptível na medida em que os dados do comércio exterior chinês mostram uma forte alta nas importações de calçados desses e de outros países: “desde 2015 essas importações dobraram e um país como a Indonésia passou a figurar entre os grandes exportadores. O Vietnã sempre foi um grande exportador de calçados para a China mas a Indonésia somente passou a ocupar posição de destaque em 2017. Outros grandes exportadores são Hong Kong, através de uma manobra pela qual a China exporta o produto para Hong Kong e depois importa de volta por uma questão tributária. Outro destaque são os Estados Unidos,  o quinto exportador de calçados para a China”.

De acordo com o executivo do InvesteSP, o Brasil não figura na lista dos grandes exportadores de calçados  para a China, mas tem espaços a explorar no maior consumidor mundial do produto, à frente dos EUA e do próprio Brasil. Além disso, a China tem um mercado em franco crescimento e como o país não está mais focado em ampliar a produção interna, nesse mercado de US$ 60 bilhões anuais há nichos que podem ser ocupados pela indústria calçadista brasileira.

Penetrar nesse mercado é um grande desafio para o exportador brasileiro. Em seu raciocínio, José Mário Antunes traça um paralelo entre as situações da Itália e do Brasil na busca por mercados externos para sua produção de calçados: “o mercado da Itália não chega a um terço do mercado brasileiro e por isso os italianos são quase obrigados a irem além de suas fronteiras. Em contrapartida, o empresário brasileiro tem o conforto que é dispor de um grande mercado interno e acaba dependendo muito desse mercado e nem sempre busca a internacionalização”.

Mas as diferenças entre Brasil e Itália não se restringem ao tamanho dos respectivos mercados internos. Há também especificidades em matéria de estratégia de posicionamento no mercado chinês: “o que eu percebo é que o empresário italiano vai à China e procura abrir uma loja para posicionar o seu produto, a sua marca, se interessa em saber onde ele vai ser colocado. Enquanto isso, o empresário brasileiro tem como objetivo fechar um contêiner, transportar e vender. Mas se queremos posicionar uma marca é preciso ir além da venda em si. É preciso buscar um posicionamento para a marca, trabalhar a imagem do país, do produtor e do produto. Em qualidade, o calçado brasileiro não perde para nenhum país do mundo mas é imprescindível trabalhar o posicionamento da nossa marca. Essa é uma tarefa que compete ao empresário brasileiro”.

Há mais de uma ano atuando como Diretor do Escritório do InvesteSP, José Mário Antunes procura transmitir ao exportador conhecimentos preciosos e que podem ser determinantes para o sucesso nas vendas para esse gigantesco mercado.

Segundo ele, “para atingir o consumidor final na China é importantíssimo considerar a digitalização da economia chinesa. Nada menos que 20% de todo o varejo chinês é feito através do e-commerce, percentual que no Brasil gira em torno de 5% a 6%. E o varejo chinês é altamente diversificado. Além desses canais de acesso é muito importante oferecer aos chineses produtos de qualidade e com design customizados para o público chinês, que tem um gosto diferenciado do nosso. E é muito importante que o exportador brasileiro em potencial entenda os hábitos de consumo e as características específicas para que alcance uma penetração mais fácil no exigente e competitivo mercado chinês”.

José Mário Antunes chama a atenção para uma outra singularidade do mercado chinês: a importância crescente da popularização das promoções via meios eletrônicos: “as promoções e vendas ao vivo por meio das redes sociais são uma tendência cada vez mais popular na China, e essa moda veio para ficar”.

E ele adverte que “o processo de digitalização das vendas na China pode demandar um investimento alto. Uma loja numa plataforma de e-commerce famosa custa aproximadamente US$ 100 mil, mas existem alternativas mais baratas para digitalizar a operação e encurtar a distância até o consumidor final”.

Antes de concluir, o Diretor do Escritório do InvesteSP reitera um conselho que costuma repetir tanto aos empresários já presentes na China como aqueles que projetam internacionalizar suas empresas e conquistar espaços nesse imenso mercado: “o chinês não quer apenas qualidade. Ele demanda também quantidade e estabilidade na entrega. Essa é uma observação      recorrente dos chineses em relação às exportações brasileiras”.

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