Conselhos da Fiesp debatem futuro do agronegócio com membros da OMC, governo federal e setor privado

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São Paulo – Os impactos da pandemia de Covid-19, as consequências da guerra comercial entre China e Estados Unidos e as mudanças no comércio internacional de alimentos foram alguns dos temas analisados durante e reunião conjunta dos Conselhos Superiores de Agronegócio (Cosag) e Comércio Exterior (Coscex), realizada nesta segunda-feira (6) e conduzida por Jacyr Costa Filho e pelo embaixador Rubens Barbosa.

Alexandre Mendonça de Barros, sócio-consultor da MB Agro abiu os trabalhos ao propor uma breve observação das transformações ocorridas na balança comercial do agronegócio mundial entre 1990 e 2018. Um levantamento feito pela Organização Mundial do Comércio (OMC) mostra que ao passo em que a Europa se tornou uma grande exportadora líquida de alimentos nos últimos 28 anos, a China e o Oriente Médio assumiram o protagonismo na importação de produtos agrícolas e oriundos da atividade pecuária, especialmente soja e proteína animal.

Mais recentemente, o gigante asiático sofreu um grande abalo em sua produção de carne suína em virtude da peste suína africana e do aumento no número de problemas sanitários causados também pela pandemia do novo coronavírus. Aliados à guerra comercial travada com os Estados Unidos, esses dois fatores abrem uma janela de oportunidades para o Brasil, de acordo com o especialista em agronegócio.

“Com a interrupção da exportação de soja americana, a China passa a importar a soja brasileira, e com a peste suína, ela tenta encontrar suprimentos no Brasil”, explicou Barros.

 “A combinação da crise sanitária com a guerra comercial é espetacular para a agricultura brasileira, mas temos que ter inteligência para ampliar o leque de oportunidades e, ao mesmo tempo, mostrar que somos um fornecedor confiável”, acrescentou o consultor.

O embaixador Orlando Ribeiro, secretário de Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, concorda que a briga entre China e Estados Unidos abriu oportunidades para o Brasil a curto prazo, mas alertou que no futuro o embate pode se tornar inconveniente para o agronegócio brasileiro.

“A volatilidade é sempre pior que a estabilidade”, observou Ribeiro. “Se os EUA voltarem a se entender com a China, esse entendimento afetará, sobretudo, nossas exportações do setor de agronegócio”, advertiu o embaixador ao usar um possível excesso de produção de soja como exemplo.

Apesar das discordâncias em relação às consequências da guerra comercial entre China e EUA, ambos concordam que a oferta de poucos produtos torna o Brasil vulnerável a variações cíclicas comuns da economia. A fim de resolver esse problema e tornar o país economicamente mais atraente para o comércio internacional, o governo federal vem trabalhando para expandir a cesta de produtos brasileiros e conquistar novos mercados. Segundo o embaixador, essa diversificação é uma das prioridades da ministra Tereza Cristina.

“Desde 1 de janeiro de 2019, abrimos 77 novos mercados”, enalteceu Ribeiro. “Se compararmos os cinco primeiros meses de 2020 com o mesmo período do ano passado, vamos ver que as exportações do agronegócio cresceram 8% e foram puxadas, sobretudo, pela Ásia, onde as exportações brasileiras cresceram 25%”, afirmou.

O interesse na China é tão grande que o governo federal criou pela primeira vez na história uma equipe dedicada exclusivamente a um único país. Sob o comando de Larissa Wachholz Cabral, o Núcleo da China do Ministério da Agricultura foi concebido para estudar e identificar oportunidades no país, que hoje é o maior cliente do agronegócio brasileiro – hoje, os chineses são responsáveis por cerca de 35% das exportações brasileiras.

“A China tem uma população grande e uma grande capacidade de compra, então a gente enxerga um potencial de inserção de novos produtos e produtos de nicho, além de um potencial para atração de investimentos em infraestrutura, tecnologia e inovação financeira para agronegócio”, explicou Cabral.

A especialista acredita que algumas tendências no padrão de consumo dos chineses devem se consolidar no período pós-pandemia, entre elas o incentivo ao consumo de produtos orgânicos e funcionais, a obtenção de itens vendidos em mercados menores e feiras livres organizadas em locais próximos à população, e, sobretudo, a valorização da sanidade dos alimentos adquiridos.

“A China enxerga a segurança alimentar e a segurança dos alimentos como estratégicas”, afirmou a especialista. Além disso, o Estado tem investido pesado em políticas públicas que estimulam o consumo nos setores de comidas e bebidas. Os chineses que vivem em ambientes urbanos viram seus gastos crescerem 21% nos últimos anos.

“Alimentos e bebidas importados têm nível de aprovação maior junto com os chineses exatamente porque eles acham que são mais seguros, então precisamos aproveitar essa oportunidade para nos tornarmos um parceiro na segurança alimentar e na segurança dos alimentos para a China e buscar formas de participar deste mercado consumidor de forma mais ativa, com produtos de maior valor agregado e inserção de marcas que os chineses queiram consumir”, destacou a assessora especial.

O que diz a OMC                                        

Victor do Prado, diretor do Conselho e Comitê de Negociações Comerciais da OMC, compartilhou uma visão um pouco mais diligente sobre o desenvolvimento de novos mercados para o agronegócio brasileiro e as oportunidades geradas pela guerra comercial entre China e Estados Unidos. Ele alertou que a rivalidade entre os dois países é inédita e muito mais complexa do que se imagina, em grande parte, devido à sua natureza multifacetada.

“O sentimento que temos é que somos reféns dessa rivalidade, que tem componentes econômicos, comerciais, estratégicos, militares e até tecnológicos, e que difere de tudo o que já existiu, inclusive durante a Guerra Fria”, afirmou Prado.

Para o diretor, vivemos tempos difíceis, e a crise provocada pela pandemia da Covid-19 poderá ter efeitos extremos em um mundo já tenso e fragmentado.

“As previsões não são otimistas, seja aqui, na OCDE ou no FMI”, admitiu o especialista. “Teremos uma queda dramática no comércio internacional e no PIB mundial e veremos uma tendência de os países olharem para dentro”, acrescentou o brasileiro.

Segundo ele, o vírus causou uma interrupção nas cadeias de valor e levou países a adotarem restrições a agropecuários, uma medida que pode abrir oportunidades para o Brasil, mas causar apreensão no resto do mundo. A cooperação internacional será mais necessária do que nunca, e o Brasil tem potencial para exercer um papel primordial nesse cenário.

(*) Com informações da Fiesp

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