Desglobalização e ESG são temas de destaque no “Perxpectivas Comex 2023”, promovido pela Asia Shipping

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São Paulo – Líder na importação e segundo lugar na exportação segundo levantamento da consultoria Datamar, a Asia Shipping, integradora digital de cargas via modais marítimo, aéreo e terrestre, reuniu em São Paulo mais de 600 clientes, parceiros e prospects em seu evento proprietário “Perxpectivas Comex 2023”.

Mais de 1200 pessoas puderam acompanhar a programação de maneira remota e aproveitar os conteúdos que abordaram macroeconomia no mundo e especificamente no Brasil, o impacto do cenário econômico e da geopolítica no comércio exterior, bem como desafios e oportunidades para o setor em 2023.

Dois temas foram recorrentes entre os palestrantes e painelistas: a desglobalização e a necessidade de as empresas investirem cada vez mais em ESG. Na abertura, o economista Fernando Ulrich discutiu “A nova ordem mundial desta década e os impactos no Brasil”, que destacou três forças que achataram o mundo nas últimas décadas: a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, quando milhões de pessoas passam a se integrar e comercializar com o mundo inteiro (globalização); a entrada da China para a Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 e a potência hegemônica construída pelo país asiático.

Em sua apresentação, Ulrich comentou sobre as incertezas trazidas inicialmente pela pandemia de Covid-19, que provocou um choque de demanda e o medo de uma deflação similar à década de 1930. Porém, depois desse choque inicial, os governos concederam políticas públicas para que o consumo caísse demais, o que acabou estimulando a demanda e gerando falta de espaço nos navios e, consequentemente, aumento nos valores dos fretes.

Quando o tema é geopolítica, o economista destaca Rússia-China como um dos grandes blocos regionais que estão se formando na atualidade. “A China é insuficiente na produção de petróleo e precisa importar da Rússia, que, por sua vez, enfrenta uma série de sanções econômicas em função da guerra com a Ucrânia. Outro ponto a ser observado é a relação da China com Taiwan, principal centro de produção de chips no mundo, que pode ser invadida pela China em até dois anos. Há, portanto, uma tendência de fechamento para autossuficiência, o que pode ser um indício do movimento de (des)globalização, com blocos regionais se retroalimentando”, afirmou Fernando Ulrich.

Neste movimento de desglobalização, ganham forças modelos de negócio como friendshoringallyshorinnearshoring, com o objetivo de garantir a segurança no fornecimento de insumos. De acordo com Rafael Dantas, Diretor de Vendas da Asia Shipping, a dependência exclusiva da China como o principal fornecedor, somada às políticas de Covid Zero e lockdowns, bem como a nova realidade de custos dos fretes, reacenderam a pauta de nearshoring como forma de evitar a quebra da cadeia logística e garantir preços mais competitivos.

Transição energética e Infraestrutura

No painel que reuniu Luigi Ferrini, Vice-presidente da Hapag-Lloyd Brasil, Ricardo Arten, CEO da Brasil Terminal Portuário (BTP), Mauro Correia, CEO da CAOA, Francisco Pires, CEO da Novelis América do Sul e Rafael Dantas, Diretor de Vendas da Asia Shipping, dois temas forma unânimes: a valorização da pauta ESG, que inclui transição energética para descarbonização, e a necessidade de investimentos em infraestrutura.

De acordo com o CEO da CAOA, a descarbonização é o grande foco da eletrificação dos veículos da marca. Em 2021, a marca comercializou no Brasil 32 mil unidades híbridas. Ate setembro desse ano foram 28 mil veículos, devendo chegar à margem de 40 mil unidades até o final desse ano. Já a comercialização de veículos elétricos cresceu 19% no primeiro semestre de 2022. “Começamos a democratizar o acesso a veículos elétricos e híbridos no Brasil. Temos condições espetaculares para a geração de energia limpa”, ressaltou.

Com fábricas novas no Brasil e nos Estados Unidos, a Novelis tem investido em hubs regionais. “A gente aumentou a capacidade de 700 mil toneladas de alumínio para mais de 1,2 milhão em dois anos. Temos trabalhado fortemente com a Argentina, Chile e com mercados na África. Temos escala, mão de obra qualificada e precisamos aproveitar essa oportunidade”, disse Francisco Pires.

Já o CEO da BTP destacou a falta de dragagem e, consequentemente, de acessibilidade aos portos. Segundo Arten, existem dificuldades para o desenvolvimento de terminais maiores. “E não é por falta de dinheiro. Há interesse da iniciativa privada para colaborar. É preciso desburocratizar processos e garantir segurança jurídica”, destacou. O pensamento é compartilhado por Luigi Ferrini, da Hapag-Lloyd Brasil. De acordo com o executivo, muitas vezes os navios não podem utilizar toda a sua capacidade em função do calado.

Geopolítica

“Não vim para prometer estabilidade. Será um ambiente de incertezas nos próximos 10 meses, um ano, já que temos uma guerra na Ucrânia e um momento de tensão entre China e Taiwan”, afirmou o consultor europeu Lars Jensen, considerado referência no mercado de Shipping. Em sua palestra, ele destacou o colapso da demanda e procura durante a pandemia, especialmente em 2021, que impactou o preço dos fretes e o congestionamento dos terminais.

“Se normalmente uma carga levava em média 45 dias para ser embarcada da China para os Estados Unidos, em alguns momentos esse período ultrapassou 100 dias. “Nos portos de exportação, os navios de Xangai esperavam mais tempo para serem carregados, e nos portos de importação, como Los Angeles, ficavam presos porque não havia espaço nos depósitos de contêineres”, explicou.

Com relação ao IMO 2023, programa que visa encorajar a melhoria da eficiência dos navios e a adoção de combustíveis de baixa emissão de carbono, o consultor acredita em impactos de curto e longo prazo. Várias embarcações passarão pelo processo de recertificação e novos navios entrarão no mercado no ano que vem para substituir os mais antigos.

Para cumprir os compromissos ESG, Lars Jensen acredita que os maiores armadores estão acelerando o processo de transição energética, o que pode representar vantagem competitiva para os grandes players. Entre as novas fontes de energia para as embarcações, ele menciona o próprio gás natural (GLP), que possui emissões menores de poluentes; energia elétrica, eólica e a construção de sistemas híbridos. “Ainda não temos uma fórmula fechada”, completou.

Conter a Inflação: maior desafio da economia mundial

De acordo com o economista Ricardo Amorim, esse cenário está mais distante do que se imagina. Desde 1980, não se via tanta inflação no mundo. “No Brasil, a gente está mais adiantado e mais bem posicionado no combate à inflação porque o problema chegou antes e mais forte durante a pandemia. A lição de casa que fizemos no passado, o mundo faz agora”, disse o economista, que sinalizou a possibilidade de a economia brasileira crescer mais que a chinesa neste ano.

Para Amorim, a quebra da cadeia de suprimentos global, o caos logístico e a freada na economia chinesa causados pelos diversos lockdowns no país para controlar a transmissão da Covid impactaram significativamente toda a economia mundial. O cenário pode se agravar com o novo aumento de casos de Covid na China.

No caso do Brasil, a expectativa é que haja um cenário econômico mais positivo em 2023. “Embora seja um país mais fechado, a parcela de comércio exterior cresceu e deve ampliar ainda mais. Exportando mais, a gente também vai importar mais”, finalizou.

(*)  Com informações da Asia Shipping

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