Dólar fraco faz Brasil voltar a ser importador de lácteos

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De exportador a importador. A balança comercial de lácteos teve em 2009 o seu primeiro saldo negativo após cinco anos de superávit Curitiba -O déficit deve ficar entre US$ 80 e US$ 90 milhões, prevê Rodrigo Alvim, presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Levantamento do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) mostra que, até novembro, as importações do setor superavam as exportações em quase US$ 95 milhões.

 

Foram US$ 250 milhões contra US$ 155 milhões exportados. Dólar em baixa – A queda do dólar derrubou as exportações, ao mesmo tempo em que incentivou as importações. Entre janeiro e novembro de 2009, as vendas externas de produtos lácteos do Brasil caíram 51% em volume e 68% em receita ante 2008. Já as importações, no mesmo período, cresceram 81% em volume e 30% em valor. Uma realidade bastante diferente de um ano atrás. Em novembro de 2008, a balança comercial do setor acumulava saldo positivo de US$ 291 milhões.

 

Com dólar forte e demanda firme, o setor fechou aquele ano com resultado recorde: US$ 541,6 milhões em exportações e superávit de US$ 328,4 milhões. Em 2009, explica Alvim, a crise financeira reduziu o poder de compra do consumidor, principalmente nos países em desenvolvimento, que é onde o consumo mais cresce, e isso prejudicou o comércio internacional. Crise – “Agora a poeira da crise está baixando e os preços já começaram a subir lá fora. No norte da Europa, a tonelada do leite em pó está cotada em média a US$ 3,5 mil.

 

Teve negócios a até US$ 4,2 mil”, relata o dirigente. No primeiro semestre do ano passado, auge da crise, os importadores da região pagavam em média US$ 1,8 mil pela tonelada do produto. Mercado interno – A elevação dos preços internacionais não foi repassada ao mercado interno, que ainda trabalha com cotações deprimidas, próximas de R$ 0,60 o litro no Paraná. “Uma margem pequena, mas positiva”, diz Fábio Mezzadri, veterinário responsável pelo setor de leite na Secretaria Estadual da Agricultura e Abastecimento (Seab). A boa notícia é que a valorização dos produtos lácteos no mercado internacional favorece as exportações, pois devolve competitividade alo Brasil, observa Aline Barrozo Ferro, pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP.

 

“Deve incentivar as vendas.” Superação – Para a CNA, o aumento das cotações internacionais vai fazer com que as exportações brasileiras superem as importações em dezembro (os dados oficiais ainda não foram divulgados). Não será suficiente para reverter o déficit da balança comercial em 2009, mas indica que 2010 deve ser um ano recuperação. “Vamos depender do câmbio. Se 2010 for como 2009 o setor não agüenta”, adverte Alvim. Lucro de R$ 0,05/litro desanima produtores

 

A queda no preço do litro de leite e a margem de lucro de R$ 0,05 está desanimando produtores de lácteos da região de Campo Mourão, no Centro-Oeste do estado. No início do ciclo, diante de previsão de elevação do consumo interno e aumento nas exportações, eles esperavam margens mais folgadas em 2009. Por conta das frustrações com o mercado, o produtor Armin Tierling, que produz uma média de 120 litros de leite por dia, gostaria de interromper a produção, mas se vê em um dilema. “Hoje não tenho para quem vender as 16 vacas que tenho. E trocar por banana vai gerar ainda mais prejuízos. Se conseguisse vender os animais já teria abandonado a atitivade por conta do alto custo de produção e lucro insignificante”, reclama.

 

Previsões

 

Já o produtor José Fernando Alves Henriques afirma não confiar em previsões ou estimativas de analistas do setor. Ele acredita que o câmbio descontrolado e a produção estável dos Estados Unidos e Europa são ingredientes que contribuem para as indústrias processadoras baixar, sem critérios, os preços do litro de leite no verão. “É uma política desleal que afeta o produtor e faz despencar o preço do litro na fazenda. Outro fator que colabora para essa queda é o dumping, em época de colheita, por parte do Uruguai e Argentina.

 

Essa prática comercial é responsável pelas grandes promoções em redes de supermercados de um produto com qualidade duvidosa”, argumenta. Padrões internacionais – Segundo ele, enquanto na Europa a margem das empresas processadoras é de 70%, no Brasil oscila entre 120% e 150%. “É fora dos padrões internacionais. Aqui, as indústrias pagam ao produtor R$0,61 o litro, e o mercado vende o mesmo produto a R$ 1,40 ou R$1,50 o litro. Não vale a pena. É uma atividade que precisa de alto investimento, mas que tem baixa rentabilidade e não tem incentivo do governo.

 

Em Portugal, o governo além de subsidiar toda a produção leiteira também auxilia na exportação”, diz. Quarto do ranking, Paraná se destaca pela produtividade Quarto maior produtor mundial (atrás da Índia, China e Rússia), o Brasil produziu 27,579 bilhões de litros de leite em 2008, 5,5% mais que em 2007. O Paraná, com 2,83 bilhões (+4,7%), é o quarto produtor, atrás de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Goiás. Quatro entre os vinte municípios que mais produzem leite no país estão no Paraná. Juntos, Castro, Toledo, Marechal Cândido Rondon e Carambeí, produziram no ano passado 399,4 milhões de litros, o equivalente a 14% da produção paranaense e 1% da brasileira. Os números são da Pesquisa Pecuária Municipal (PPM) do Instituto Brasileiro Geografia e Estatística (IBGE).

 

 

Acima da média

 

O Paraná se destaca não pelo tamanho do rebanho (1,3 milhão de cabeças, 6% do total nacional), mas pela produtividade, 77% superior à média brasileira. Enquanto o Brasil produz em média 1,277 mil litros/vaca/ano, no Paraná essa média é de 2,265 mil. O índice é considerando elevado no país, mas ainda está aquém das médias européias e norte-americanas, onde cada vaca chega a produzir 10 mil litros de leite por ano.

 

Importação de leite complica mercado interno

 

A retração das exportações ajudou a derrubar o saldo comercial dos lácteos, mas a maior pressão veio do outro lado da balança. “2009 foi atípico. O real forte provocou uma superimportação de produtos lácteos a preços muito baixos”, explica a pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, Aline Barrozo Ferro.

 

Até novembro de 2009, 69,8 mil toneladas entraram no país, 81% mais que nos 11 primeiros meses do ano anterior, de acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Comércio mundial – Com a queda do dólar e a redução dos preços internacionais, países onde os custos de produção são mais competitivos abocanharam fatia maior do comércio mundial, que encolhia por causa da crise. O consumo de lácteos, que antes crescia a taxas de 3% ao ano, aumentou apenas 1,3% em 2009, conforme pesquisa realizada pela sueca Tetra Pak Dairy Index.

 

A redução do ritmo de crescimento ajustou a relação entre oferta e demanda, que até 2008 pendia em favor da oferta. “Até o primeiro semestre de 2008 tínhamos preços sensacionais. No período pré-crise, entre 2004 e 2006, o consumo mundial crescia mais que a oferta. Aumentava até 3,5% ao ano, enquanto a produção crescia 2%. Em 2007, quase faltou leite e isso levou a uma explosão dos preços internacionais”, diz Rodrigo Alvim, presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Produção brasileira – Os preços altos incentivaram o aumento da produção brasileira. Entre 2007 e 2008, o país ampliou em 5,5% a produção nacional de leite, de acordo com o Instituto Brasileiro Geografia e Estatística (IBGE).

 

No mesmo período, os preços recebidos pelos produtores paranaenses aumentaram 9%, conforme levantamento do Departamento de Economia Rural (Deral) da Seab. Em 2007, o Brasil, que em 2003 era importador, se firmava como exportador de lácteos. Seguiram dois anos de euforia, quem culminaram com recordes nacionais em 2008. Retomada – Mas se a produção que crescia aqui, também aumentava lá fora. Tradicionais exportadores de leite como Europa, Nova Zelândia, Austrália, Estados Unidos e Argentina retomavam a produção.

 

Em meados de 2008, os preços, até então em alta, começavam a recuar, estreitando as margens dos produtores de leite no mundo todo. No auge da crise, no segundo semestre do ano passado, europeus protestaram jogando leite nas ruas, americanos abateram 150 vacas leiteiras por dia, governos lançaram pacotes milionários para abrandar a crise. No Brasil, para conter as importações, o governo impôs cotas para o produto vindo da Argentina e do Uruguai e negociou a elevação de 14% para 28% da Tarifa Externa Única (TEC) sobre lácteos importados do Mercosul.

 

Fonte: Gazeta do Povo

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