Edição 2020 do Fórum BLTA sinaliza novos caminhos e perspectivas para a hotelaria de luxo no País

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São Paulo – Além de ter o alicerce de seus valores sob um tripé (sustentabilidade, diversidade e autenticidade), a Brazilian Luxury Travel Association poderia inserir mais um: inovação. Isso se baseia na concepção totalmente digital de seu fórum anual, realizado durante cinco dias alternados entre 28 de outubro e 11 de novembro.

“Foi a primeira ação on-line da BLTA e podemos afirmar que superou as nossas expectativas. Criamos, em menos de um mês, um portal não só para a realização de webinares e debates – os Diálogos –,  mas uma ferramenta interativa entre os participantes pela qual foi possível trocar comentários via chat e cartão de visitas, acessar os stands dos associados e patrocinadores e todo o conteúdo (disponível em www.youtube.com/playlist?list=PL_sEPlkB6tT78bZZI8k3D9WhG8RGAPXcL). Foram mais de 35 horas de gravação mostrando e debatendo a diversidade de nosso país”, afirma a diretora-executiva da associação, Simone Scorsato. “Este formato digital permitiu ampliar a nossa voz e o nosso manifesto”, complementa.

Por sua vez, o presidente da BLTA, Martin Frankemberg, aponta outro diferencial em relação à concepção do fórum: “Geralmente, os eventos do turismo de luxo são fechados para um pequeno grupo de agências. Este, porém, teve uma grande diferença, pois foi aberto a um público mais amplo e a gente conseguiu transmitir um pouco sobre o que significa o turismo de luxo para o próprio trade e para a economia do Brasil”, afirma.

O alcance atingido pelo fórum pode ser mensurado em números. De acordo com Simone, somente no dia de abertura – que contou com a participação da presidente do World Travel & Tourism Council (WTTC), Gloria Guevara – reuniu 640 pessoas. Além disso, cada um dos cinco Diálogos (mesas redondas com especialistas) promovidos reuniu, em média, um público de 100 pessoas ao vivo; quanto aos webinares (encontros exclusivos dos associados com agentes e operadores de viagem), a média foi de 300 pessoas por dia.

Outro aspecto que vale ser ressaltado foi o Fee Solidário, uma inovação no processo de inscrição. “Buscamos estimular que os participantes pudessem conhecer e se engajar em projetos sociais. Para isso, incluímos no portal dois projetos – SOS Pantanal e o FAM – Fundação Almerinda Malaquias -, estimulando a adoção de uma inscrição por meio de contribuições espontâneas. Não era uma obrigatoriedade doar para ter acesso ao fórum, mas ao todo foram arrecadados R$ 4.300. Uma soma ainda tímida, mas que representa muito para nós, sem dúvida. Foi uma iniciativa que se mostrou eficaz e será adotada de forma permanente em eventos futuros”, antecipa Simone.

Edição 2020 do Fórum BLTA sinaliza novos caminhos e perspectivas para a hotelaria de luxo no PaísEssa iniciativa, ressalta-se, alinha-se aos propósitos da BLTA, que incentiva, de forma permanente, a prática de ações solidárias por seus associados nas comunidades onde estão presentes. Conforme explica Claudia Baumgratz, da Comuna do Ibitipoca, é importante contratar moradores da região e investir em sua capacitação, assim como, também, valorizar e promover a cultura local. “Estimulamos a comunidade a continuar com seus hábitos culturais por meio do turismo, pois a autenticidade faz parte do luxo”, afirma.

Esse aproach com as comunidades ganha contornos ainda mais relevantes em uma ótica que valoriza a transformação e o reconhecimento de saberes, segundo afirma o arquiteto Marcelo Rosenbaum, do Instituto A Gente Transforma. “Na minha vida, passei por uma transição e comecei a olhar de que forma poderia ter um impacto maior. Hoje, dedico meu tempo para o instituto, que é um projeto em que colocamos o design e a arquitetura como ferramenta de transformação e reconhecimento de saberes. Chegamos a comunidades muitas vezes esquecidas para realizar uma arqueologia afetiva. Investigamos histórias e nos conectamos com a ancestralidade deles para que isso não seja apenas consumido como produto, mas que comunique um saber e o reconhecimento deles”, afirma.

Por sua vez, Andrea Natal, que recentemente deixou o Belmond Copacabana Palace após mais de duas décadas de atuação, destaca a importância de se valorizar a comunidade por meio da inclusão. “Além de saber a procedência do que estamos comprando, priorizamos fornecedores e produtores locais como uma forma de estímulo e reconhecimento ao trabalho deles”, diz. O investimento na educação como meio de transformação (materializado no apoio ao projeto Solar Meninos de Luz, no Rio de Janeiro) também faz parte do legado de Andrea. “Acolhemos 400 crianças, dos três meses de idade até entrar na faculdade, que estejam passando por situações de violência ou problemas familiares. Observamos de perto os resultados e fico orgulhosa ao constatar que esse projeto ganhou apoio até do Criança Esperança. Essa iniciativa, a meu ver, reforça algo em que sempre acreditei: que é possível doar o nosso tempo desta maneira”.

HIGHLIGHTS DO FÓRUM

Pela diversidade dos temas abordados, alguns indícios constatados apontam perspectivas para o setor e uma ‘redefinição’ do conceito de luxo quando se trata de hospitalidade.  Por esse prisma, aos olhos do novo consumidor de luxo ganham mais evidência as viagens com propósito que contribuam para o desenvolvimento das comunidades e destinos, assim como os cuidados com o meio ambiente e os moradores. Além disso, aposta-se na humanização da prestação de serviço por meio de um intercâmbio das relações pessoais entre o anfitrião e o hóspede e a valorização de serviços que promovam bem-estar, saúde e autoconhecimento. Atitudes e caminhos que reafirmam, uma vez mais, que o luxo essencial reside no conforto sem ostentação, no cuidado permanente aos detalhes e na oferta de experiências autênticas e genuínas.

Anuário BLTA

Edição 2020 do Fórum BLTA sinaliza novos caminhos e perspectivas para a hotelaria de luxo no PaísEm 2019, os associados da BLTA registraram uma movimentação de US$ 1,2 bilhão com a venda de hospedagem, superando as cifras do ano anterior. Um crescimento que também se reflete no aumento da oferta e comercialização de unidades habitacionais: subiu de 1.633 para 2.239 e a venda pulou de 313,6 mil para 428,6 mil, resultando em uma ocupação de 52%. Já em 2020, com a chegada da pandemia de Covid-19, os índices despencaram a partir de março, mas começaram a dar sinais de recuperação em julho e, em setembro, os hotéis BLTA alcançaram a ocupação média de 55% (superior ao verificado em 2019).

Reset do turismo no Brasil

“Em nossas conversas com os governos, pedimos a divulgação de dados sobre a reabertura das fronteiras para que o setor tenha uma recuperação mais rápida possível, mas nosso foco também está direcionado para a melhoria das experiências de viagem, deixando-as semelhantes ao período pré-Covid. É necessário reativar a economia global, pois milhões de empregos dependem dela. No Brasil, por exemplo, em 2019 a receita da atividade turística cresceu 3%, índice superior ao 1,2% de crescimento geral do PIB, gerando 7,4 milhões de empregos.” Gloria Guevara, presidente do WT&TC.

Desafios para o desenvolvimento do turismo no país

De acordo com a BLTA, alguns dos principais desafios para que o turismo de luxo se desenvolva no país necessitam de urgente atenção. O primeiro deles é a ausência de políticas públicas focadas no turismo sustentável e de luxo. Em termos de infraestrutura, um fator negativo é a falta de conexões e imprevisibilidade da malha aérea brasileira, que, se ajustada, beneficiaria não apenas os deslocamentos internos dos visitantes estrangeiros, mas, também, o público nacional que está dirigindo sua atenção para viagens domésticas, uma vez que está impedido de viajar ao exterior frente às barreiras sanitárias impostas pelo Covid-19.  Qualificação de mão de obra, capacitação de fornecedores e imagem negativa do país (instabilidade política e sanitária) no exterior são aspectos que também pesam no processo de recuperação.

Turismo Sustentável

 “O Turismo sustentável, na abrangência de seu conceito, atua em prol da conservação e da recuperação dos biomas brasileiros e é, com toda certeza, uma das melhores alternativas para atrair estrangeiros. No entanto, a falta de políticas públicas que priorizem o turismo como vetor de desenvolvimento nos coloca em desvantagem no cenário internacional. Não acredito que sejamos tão competitivos em praias, pois há opções tão boas quanto em outros lugares do mundo, e a nossa vantagem é a natureza, pouquíssimo conhecida até mesmo pelos próprios brasileiros.” Roberto Klabin, proprietário do Refúgio Ecológico Caiman.

“Temos potencial fantástico e um tesouro enorme a ser explorado, desde que de maneira responsável. Nosso desejo é fortalecer as operações e chegar a um ritmo semelhante ao que acontece na África, onde essas viagens com foco em natureza agregam muito valor aos ecossistemas.” Alex Da Riva, gerente do Cristalino Lodge.

Slow Travel

“Agora temos uma oportunidade de repensar o nosso modo de viajar e as relações, alterando a maneira como exploramos até então o planeta, e também de desacelerar. O turismo de luxo trata-se de uma compra muito emocional, de acordo com o momento. Hoje, há uma mudança de valor do ‘ter’ e ‘comprar’ pelo ‘ser’, na busca pela conexão consigo mesmo”. Melissa Oliveira, diretora geral dos hotéis Unique São Paulo e Unique Garden e vice-presidente da BLTA.

“A ideia é mudar a velocidade das nossas vidas durante as férias. O turismo de luxo continua se transformando e coloca em jogo o tipo de experiência que cada um deseja e qual impacto ela vai deixar no destino.” Simon Heyes, diretor e fundador da Senderos.

“Com o bloqueio de fronteiras internacionais, o consumidor de alto padrão passou a olhar para dentro do país. Um grande número de brasileiros acostumados a viajar para o exterior tem uma quantia em reserva e pode utilizá-la em viagens domésticas. E os estrangeiros, quando retornarem, terão poder de compra maior, em razão da moeda, possivelmente reservando viagens mais longas.” Mari Campos, jornalista.

Promoção da imagem do Brasil no exterior

“Falta continuidade e consistência do destino Brasil na comunidade internacional. A estratégia possui basicamente pílulas com pequenas campanhas lá fora, que retornam anos depois. Não importa se é um real ou milhão investido, mas é preciso continuar. O Brasil poderia ser a escola mundial da hospitalidade porque temos o elemento de amar gente e lidar com pessoas. É uma característica genuína, interessante, verdadeira e que transmite afeto.” Carlos Ferreirinha, presidente e fundador da MCF Consultoria.

“Quanto à promoção turística do país em nível internacional, nunca deveria ser interrompida, mas nem mesmo internamente o Brasil foi vendido para os próprios brasileiros. Acredito que, com a retomada, será possível relançar o turismo internacional como um restart”. Ricardo Freire, jornalista, do site Viaje na Viagem.

(*) Com informações da BLTA

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