Especialistas criticam e consideram inoportuno estudo do BB sobre fechamento da agência na China

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Da Redação

Brasília –  Apesar de o Banco do Brasil (BB) negar que esteja cogitando encerrar as atividades de seu escritório em Xangai, o simples fato de a instituição estar realizando estudo sobre o assunto foi recebido com apreensão e críticas por especialistas que acompanham atentamente as relações entre o Brasil e a China.

Através de uma nota lacônica divulgada pela Diretoria de Marketing e Comunicação, a instituição informou que  “mantém estudo para rever a atuação de sua rede externa com o objetivo de aumentar a eficiência e nega que haja qualquer decisão de encerrar as atividades de seu escritório em Xangai ou de qualquer outra unidade no exterior.”

Ao analisar o assunto, o CEO do LIDE China, José Ricardo dos Santos expressou sua preocupação ante o fato de que o BB esteja realizando estudo para avaliar a possibilidade de vir a fechar sua representação na capital financeira da China. Ele lembrou que “o Banco do Brasil foi a primeira instituição financeira da América Latina a conseguir uma licença para operar em território chinês e esssa foi uma importante vitória do Brasil”, destacando que o elevado fluxo de comércio e investimentos entre a China e o Brasil desaconselham que se leve adiante essa iniciativa.

Da mesma forma, o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), Jose Augusto de Castro, afirmou ter recebido a notícia com surpresa e preocupação, considerando que num momento de turbulências nas relações entre os dois países, o BB não deveria sequer estar estudando essa possibilidade.

José Ricardo dos Santos faz referência aos números alcançados pelo comércio sino-brasileiro, com uma corrente (exportação+importação) superior a US$ 101 bilhões em 2020 e aos investimentos diretos chineses no Brasil, da ordem de US$ 80 bilhões, acumulados entre 2000 e 2020, além de outros fatores para mostrar sua preocupação ante  a ideia de fechamento da representação do BB em Xangai.

José Ricardo dos Santos Luz Junior, CEO do LIDE China

Segundo ele, “além desses números altamente expressivos, através do escritório, o BB sempre contribuiu para fomentar os negócios dos brasileiros que têm investimentos no país asiático, e também a ajudar as aproximadamente 100 empresas que lá estão constituídas, desenvolvendo esse comércio de exportação e importação Brasil-China, indústrias e escritórios de representação. Por tudo isso, considero muito importante que haja uma profunda reflexão antes que uma decisão dessa envergadura (o fechamento da agência) possa vir a ser tomada”.

Para o especialista, “essa decisão não é acertada. E são vários os motivos que apontam nessa direção. Ter a representação de uma instituição financeira brasileira no país asiático, no contexto do Plano Decenal de Cooperação Brasil e China 2022-2031, que deverá ser lançado em breve, pode facilitar as trocas, os intercâmbios comerciais e também outros tipos de intercâmbios entre os dois países”.

Ao invés de fechar o escritório, ele acredita que “o que temos a fazer é pensar em meios para desenvolver ainda mais a nossa relação com a China. Até porque a relação com a China é uma relação ganha-ganha, uma relação de longo prazo e bastante profícua, e a tendência desse comércio é de se intensificar cada vez mais. É verdade que existem problemas e tensões no relacionamento entre os dois países, mas elas vão diminuir no decorrer do tempo e é preciso ter uma visão de longo prazo sobre essas relações”.

O CEO do LIDE China considera importante que o Brasil esteja atento aos planos de longo prazo elaborados pelo governo de Pequim, ao projetar suas perspectivas para o relacionamento com o maior parceiro comercial do país.

Segundo ele, “a China tem vários objetivos daqui por diante. Este ano o país comemora os 100 anos da fundação o Partido Comunista Chinês, uma data bastante emblematica e nesse contexto há uma série de iniciativas relevantes. Já está em curso, por exemplo, o Plano Made in China 2025, que estabelece que ao final desse período, 70% do setor de alta tecnologia de dez dos mais relevantes setores serão produzidos no território chinês. Existe também a expectativa de que até 2030 a Chna vai superar os Estados Unidos em termos de inteligência artificial. Por outro lado, a China projeta para 2050 se transformar em uma economia ‘carbon free’, ou seja, livre da emissão de gás de carbono, graças  um desenvolvimento pesado em energias renováveis que permtirá a criação de uma ecocivilização, conforme estipulado nos últimos Planos Quinquenais, inclusive no 14º. Plano Quinquenal que será efetivado a partir do próximo mês de março. Ante um cenário tão relevante, entendo que a decisão mais acertada a ser tomada pelo Banco do Brasil é manter a sua agência em Xangai, cuja licença, repito, foi obtida com tanta dificuldade e após longa negoiação entre os governos brasileiro e chinês”.

Por sua vez, José Augusto de Castro recomendou prudência na tomada de uma decisão tão importante, lembrando que “neste momento, qualquer movimento em relação à China tem que ser tomado com muito cuidado”. E mostrou-se surpreso com a notícia (de estudo sobre o fechamento da agência). Segundo ele, “este não é o momento para se tomar decisões drásticas. Principalmente sem realiazar consultas com o nosso parceiro”.

José Augusto de Castro, presidente da AEB

Na visão do presidente da AEB, além de razões óbvias e da mais alta relevância, como o fato de a China ser o maior parceiro comercial e  grande investidor direto no Brasil, há um outro motivo para se considerar inoportuno e desaconselhável o estudo realizado pelo BB: “causa-me estranheza que o tema venha à tona exatamente no momento em que o Banco do Brics (o bloco integrado pelo Brasil, Rússia, India, China e Africa do Sul) é presidido pelo brasileiro Marcos Troyjo, o que, em última instância, faz com que o Brasil tenha acesso facilitado a essa instituição”.

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