Exportações brasileiras para China e Argentina poderão se desacelerar em 2023, projeta Boletim Icomex da FGV

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Da Redação

Brasília – As exportações brasileiras deverão enfrentar em 2023 um cenário mais desfavorável do que o registrado em 2022, no qual, até o mês de agosto, as vendas externas apresentaram alta de 13,1% em valor com aumento de 6,6% no volume e de 5,7% nos preços. No próximo ano, mesmo que a China recupere o seu crescimento planejado de 5,5% para 2023, é pouco provável que desempenhe o papel anticíclico que teve na crise de 2008 e no início da pandemia de Covid-19 e que foi crucial para a manutenção do crescimento das exportações brasileiras. A conclusão é do Indicador de Comércio Exterior (Icomex) divulgado hoje (19) pela Fundação Getúlio Vargas.

Da mesma forma, o boletim projeta que o volume exportado para a Argentina e demais países da América do Sul não deverá se repetir em 2023. Isto porque a Argentina já iniciou a adoção de medidas de contenção dos gastos de divisas com importações e, por outro lado, questões políticas afetam as prespectivas do comércio exterior brasileiro com países como o Chile, sexto principal destino das exportações brasileiras, e também para o Peru. Com tudo isso, o Icomex prevê que, em princípio, em 2023, as exxportções brasileiras deverão registrar alguma desaceleração no seu crescimento.

Termos de troca em declínio

O prestigiado estudo mensal da FGV/IBRE chama a atenção para o fato de que os termos de troca seguem declinando mas desaceleram as variações nos preços das exportações. De acordo com o Icomex, “na comparação interanual do mês de agosto entre 2021 e 2022, foram registradas as menores variações nos preços exportados (5,7%) e nos preços de importações (17%), o que sugere uma tendência de desaceleração dos preços no comércio mundial. Dada a diferença de variação nos preços de exportações e importações, os termos de troca seguem a sua trajetória de queda. O volume exportado da agropecuária registrou a primeira variação positiva, desde fevereiro do corrente ano, na comparação interanual mensal. A principal contribuição para esse resultado foram as vendas de milho, impulsionadas pela redução da oferta de grãos associada à Guerra da Ucrânia”.

Em relação aos dados da balança comercial até o mês de agosto, o Icomex destaca que o saldo comercial acumulado nos oito primeiros meses do ano foi de US$ 43,9 bilhões, valor inferior ao de igual período de 2021, US$ 52 bilhões. O menor superávit de 2022 é explicado pela menor variação em valor das exportações, em comparação com o resultado de 2021. Entre janeiro/agosto de 2020 e 2021, as exportações cresceram 37,4% e as importações, 34,4%. Em 2022, a variação do acumulado do ano até agosto em relação ao mesmo período de 2021, foi de 19,1% para as exportações e 32,3% para as importações.Ainda segundo o documento, “na comparação interanual do mês de agosto entre 2021 e 2022, as exportações cresceram em valor 13,1% com aumento no volume de 6,6% e nos preços de 5,7%.  Ao longo do ano, porém, a variação dos preços superou a do volume e na comparação do acumulado do ano até agosto, os preços subiram 17,4% e o volume, 1,3%. O aumento das importações, na base mensal, foi de 36,4%, com variação positiva de 17% nos preços e 16,4% no volume. Diminuiu, portanto, a diferença entre a variação nos preços e no volume observada nos meses anteriores, mas na comparação do acumulado do ano, o volume cresceu 3% e os preços, 28,1%. O ritmo de crescimento dos preços exportados e, em menor grau, dos importados, estaria, portanto, desacelerando”

O menor crescimento nos preços exportados está associado ao desempenho das commodities, que explicaram 67% das exportações brasileiras, em agosto, e 68%, no período de janeiro a agosto. Os preços das commodities aumentaram 3% e os das não commodities, 12,7%, na comparação do mês de agosto. No entanto, no ano, a variação nos preços das commodities e das commodities é similar, 18% e 17%, respectivamente. No caso do volume, as não commodities registraram variações que são superiores às das commodities, seja na comparação mensal ou no acumulado do ano até agosto. Ressalta-se a comparação do acumulado do ano, com o registro de recuo no volume exportado das commodities (-1,8%) e avanço das não commodities (+7,4%).

Nas importações, a variação nos preços das commodities foi de 51,4%, na comparação mensal, e de 63,4%, no acumulado do ano. Observa-se que embora essas importações representem cerca de 10% das importações totais brasileiras, os elevados percentuais contribuíram para que o aumento nos preços importados superasse os das exportações ao longo desse ano. Os dados indicam um aumento no volume importado das commodities (10,6%) e das não commodities (16,9%), em agosto, apesar de que no acumulado do ano a variação seja de apenas um dígito nos dois casos. O aumento em agosto pode ser um indicador do maior nível de atividade observado nos últimos meses.

O crescimento dos preços importados acima dos exportados, a partir de meados de 2021, levou a uma queda nos termos de troca, apesar da elevação nos preços das commodities. Entre junho de 2021, o maior nível dos termos de troca desde janeiro de 2015, e agosto de 2022, os termos de troca recuaram 13,4%. É um resultado distinto de outros momentos em que os preços das commodities estavam crescendo e os termos de troca melhoraram. Contribuiu para esse resultado, a queda nos preços do minério de ferro, um dos 3 principais produtos de exportação do país e o aumento nos preços de insumos, como fertilizantes. No caso do petróleo, os índices calculados pelo FGV/Icomex mostram um aumento de 57% nos preços exportados e de 75%, nos preços importados, o que representa uma contribuição adicional para a queda nos termos de troca.

O comércio com os principais parceiros

A geração dos saldos superavitários da balança comercial continua a depender do mercado asiático e, em especial, da China. Do saldo de US$ 34,2 bilhões com a Ásia, a China contribui com US$ 23,3 bilhões, no acumulado do ano até agosto de 2022  O restante, de US$ 10,9 bilhões, com os demais países asiáticos, é superior ao saldo com a América do Sul (US$ 9,7 bilhões) e com a União Europeia (US$ 5,2 bilhões). Os Estados Unidos, que são o segundo principal parceiro comercial do Brasil, explicam o déficit com a América do Norte. O saldo com os Estados Unidos foi negativo em US$ 10,5 bilhões e com o restante dos países da região foi positivo em US$ 1,1 bilhão. O segundo maior déficit por regiões/blocos foi com a União Econômica Euroasiática (Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão, Armênia e Quirguistão), onde a Rússia contribui com um déficit de US$ 4,6 bilhões, o segundo maior déficit bilateral do Brasil, após os Estados Unidos.

Os contenciosos entre os Estados Unidos e a China continuaram com o governo Biden e se intensificaram com a Guerra da Ucrânia. Para o comércio exterior dos Estados Unidos, foi identificado redirecionamento das importações chinesas de produtos de energia (gás natural, petróleo e carvão) dos Estados Unidos para a Rússia (Bown, 2022). Nesse caso, a pergunta seria se isso afeta as exportações brasileiras de petróleo para a China, que é o nosso principal mercado. Observa-se que as exportações brasileiras totais de petróleo cresceram 33%, entre os acumulados do ano até agosto de 2021 e 2022, e a participação no total da pauta aumentou de 10,7% para 11,9%. Para a China, a participação do produto na pauta de exportações brasileiras para esse país caiu de 49,2% para 37,7% e o aumento foi de 2%, na comparação interanual do acumulado até agosto de 2021 e 2022.

Por outro lado, o aumento em 145% das vendas de milho do Brasil no comércio mundial é visto como um efeito positivo da retração da oferta de grãos e dos problemas de logística na Ucrânia e Rússia.

Analisados os diversos aspectos dos contenciosos geopolíticos, o Icomex defende uma posição de neutralidade do Brasil, dentro do possível, especialmente em relação à guerra na Ucrânia  e ressalta que “independentes de efeitos positivos ou negativos, contudo, os contenciosos geram incertezas e tornam os operadores de comércio exterior mais cautelosos”. 

Além dessas questões, o cenário macroeconômico é desfavorável. Juros altos nos Estados Unidos e União Europeia, a crise da energia que afeta a Europa, a desaceleração do crescimento da China e gargalos ainda existentes nas cadeias de suprimentos apontam para o menor crescimento do comércio mundial. 

No caso específico da China, o Boletim mostra que além da retração no volume exportado, é observada uma desaceleração nos preços e, em agosto, foi registrada a primeira variação negativa na comparação interanual mensal, desde dezembro de 2020. Mesmo supondo que a China recupere o seu crescimento planejado de 5,5% para 2023, é pouco provável que desempenhe o papel anticíclico que teve na crise de 2008 e no início da pandemia e que foi crucial para manter a expansão das exportações brasileiras.

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