Exportações de alimentos devem ser as menos afetadas pela pandemia do coronavírus, diz AEB



Última atualização: 19 de Março de 2020 - 16:20
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São Paulo – O comércio exterior do Brasil e do mundo deve ter forte impacto da crise do coronavírus, mas alguns setores serão menos afetados que outros. Essa é a opinião do presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro em entrevista á ANBA nessa quarta-feira (18). Ele disse acreditar que os embarques internacionais de alimentos podem ser menos prejudicados que os demais.

Alimentos teoricamente seriam menos afetados porque são produtos de primeiríssima necessidade. Mesmo com a crise, as pessoas continuam tendo que se alimentar. Mas são afetados também”, afirma Castro.

A logística deve ser um dos entraves para que o comércio da área siga em sua normalidade. “Um setor que poderia estar funcionando bem vai ser afetado por outras atividades”, afirma, citando dificuldades no funcionamento de portos mundo afora.

Os alimentos, como carnes, soja, milho e açúcar, são justamente os grandes pilares da pauta de exportação do Brasil para os países árabes. Também figura no topo da lista o minério de ferro. “São produtos que você envia num navio, ele sai cheio do Brasil e chega cheio ao destino. Teoricamente, a logística é mais fácil. Exceto a carne, esses produtos não precisam de navio frigorificado, e até mesmo um navio com carnes pode parar num porto em que haja tomada suficiente para manter os contêineres frigorificados”, afirma Castro.

Segundo o presidente da AEB, uma das dificuldades enfrentadas atualmente nos portos chineses é que não há tomadas de energia para que produtos como a carne sigam em locais frigorificados. Dessa forma, eles precisam ser mantidos nos contêineres refrigerados dentro dos navios, o que vem gerando custo de estada das embarcações no porto. “Alguém está pagando esse custo”, afirma. Mas pelo perfil dos embarques, Castro acredita que o comércio do Brasil com o mundo árabe não será tão prejudicado como com China e Estados Unidos, por exemplo.

O setor que dá base para o comércio de alimentos, o agronegócio, segue operando normalmente no Brasil, mas também depende da engrenagem da distribuição funcionar para chegar ao mercado comprador no exterior, onde tem grande parte da sua demanda. José Augusto de Castro lembra que o Brasil produz 240 milhões de toneladas e que uma safra não é toda embarcada na colheita, mas parte dela fica armazenada para ser distribuída via portos no decorrer do ano. “Aí deixa de ser produção e passa a ser logística”, afirma.

Além de navios parados em portos por negativas dos compradores em recebê-los em função da baixa demanda e por impossibilidade de armazenamento fora das embarcações, congestionando portos, ainda há o impacto que o coronavírus pode trazer sobre a mão de obra. Nesta quarta-feira (18), trabalhadores do Porto de Santos ameaçavam começar uma greve.

É mais um fator que prejudica o que já está ruim”, afirma. O mesmo pode acontecer nos demais países em função do temor de operadores portuários de se contagiarem. “Os tripulantes de um navio, no fundo, têm grande chance de contagiar outras pessoas”, diz Castro.

Além da logística, o comércio exterior também sofrerá as consequências que virão da indústria, caso as empresas diminuam suas produções. No começo do mês, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) anunciou que a produção poderia ser afetada pela falta de peças oriundas da China. “É um conjunto de fatores”, afirma o presidente da AEB sobre os impactos possíveis do coronavírus no comércio internacional do Brasil. “Embora, no caso do Brasil, a produção não foi afetada por enquanto”, afirma Castro.

Apesar da perspectiva de que o comércio exterior de alimentos seja menos prejudicado pela crise do que outras áreas, o presidente da AEB entende que o abastecimento está mais garantido nos mercados que são produtores agrícolas. “Um mercado que tem mais dificuldade vai ser penalizado pelo exportador não conseguir contornar as questões de logística para fazer a carga chegar”, afirma Castro.

Ele lembra, porém, que os países produtores, como o Brasil, precisam exportar. “O Brasil tem uma produção grande, mas tem que mandar isso para o exterior porque no mercado interno, por mais que o consumo aumente, não há demanda para tudo”, diz.

A maioria dos países árabes, principalmente os do Golfo, são dependentes da importação de alimentos e o Brasil é um grande fornecedor deles na área. Neste momento, algumas economias árabes também se preparam para conviver com receita menor vinda do petróleo, que teve queda de quase 50% na cotação nos últimos dias.

Com a queda dos preços do petróleo, os países árabes podem ter também tendência a reduzir a demanda porque a receita de exportação de petróleo vai diminuir muito”, afirma. Mesmo nesse cenário, porém, uma possível redução nas importações deve vir de outras áreas não tão essenciais quanto a de alimentos.

Mesmo que as quantidades de alimentos comercializados sejam alteradas em menor escala do que as dos demais setores, a receita das suas vendas deverá ser bem menor para os países produtores, em função da baixa nos preços que a queda na demanda já vem causando. Isso joga para baixo a quantidade de dinheiro que entra no Brasil com a exportação da produção agrícola. O preço menor de outras commodities, como petróleo, também impacta na balança comercial brasileira, já que o País importa alguns tipos de petróleo e derivados, mas exporta outros.

Não temos como quantificar nada neste momento pois estamos em uma fase de grande transformação. Com certeza, vai ter impacto muito grande, mas não há como quantificar”, afirma Castro. Ele afirma que 65% das exportações brasileiras são commodities e lembra que já houveram alterações de preços e os volumes comercializados de petróleo, minério e soja. “Estou citando apenas três produtos de exportação do Brasil para mostrar o impacto que vai ter. As estatísticas ainda não mostram o impacto porque há uma defasagem entre os fatos e as estatísticas, mas, com certeza, vamos ter um impacto muito grande no Brasil”, afirma.

O presidente da AEB acredita que em março os números do comércio vão começar a trazer os reflexos da crise do coronavírus. Nas duas primeiras semanas de março, as exportações do Brasil somaram US$ 8,6 bilhões. Houve queda de 5,6% na média diária de embarques nas duas semanas somadas, mas na segunda semana, isoladamente, a queda foi bem maior, de 20%. Em valores, o Brasil exportou menos minério, soja, farelo de soja, café, carne de frango, máquinas e aparelhos de terraplanagem, aviões, etanol, torneiras, válvulas e partes, entre outros.

Castro conta que neste momento está difícil colocar pedidos no mercado em função dos portos congestionados, e as empresas estão buscando acelerar seus envios. O temor é que a situação piore. “As empresas, na medida do possível, estão procurando agilizar tudo o que podem de embarques para aproveitar a oportunidade”, afirma. Alguns dados divulgados, no entanto, já mostram uma melhora na situação da China. “Olha, se realmente os dados que estão sendo divulgados forem verídicos, a China aparentemente começa a pensar em uma normalização”, diz o presidente da AEB, lembrando que o país responde por 20% do comércio mundial.

Castro acredita que oportunidades vão surgir para o Brasil no cenário atual de comércio exterior, mas que serão bem pontuais, com importadores buscando alternativas de suprimento para alguma situação específica. Apesar de ter sua visão sobre o que o problema do coronavírus pode causar no comércio exterior, o presidente da AEB acredita que o momento é difícil para projeções.

Temos a indicação do que pode acontecer, sem ter a garantia, mas sabendo que, infelizmente, o que vai ocorrer não é bom. Todos os indicadores econômicos estão em baixa”, diz.

(*) Com informações da ANBA

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