Faltou lago para tanto cisne

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Gabriel  Laba (*)

Ao longo dos últimos dois anos, que, por vezes, pareceram uma década, deparamo-nos com diversos adventos; em sua maioria, negativos, mas que, sem sombra de dúvidas, mudaram o rumo do comércio exterior. Assim, tais eventos nos levam a uma reflexão retrospectiva acerca de como chegamos até aqui.

Porém não cabe a uma retrospectiva o simples fato de recordar e, ingenuamente, buscar explicar como se deu o ocorrido até o presente momento. Todavia é possível que ela tenha o papel de nos lembrar sobre a importância da humildade perante a incerteza. Em especial, no contexto brasileiro. Como já bem disse o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan, “No Brasil, até o passado é incerto”.

O início de 2020 foi um marco no Comércio Exterior, os efeitos da pandemia são e ainda serão estudados por um longo tempo. O caos logístico global que se deu, com as restrições decorrentes do Coronavírus, estendeu-se até os dias atuais. Estamos, lamentavelmente, habituando-nos ao cenário de falta de containers, fretes elevados e gargalos logísticos como um todo. Estamos sobrevivendo à maior crise logística da história.

Dada a equação, somamos a variável Brasil e temos como resultado um dos anos mais dramáticos para o Comércio Exterior. Um ano em que a única certeza foi a incerteza. Contudo isso revela uma lição importante: o respeito pelo desconhecido.

Deparamo-nos com diversos percalços, tais como a alta do dólar, o encarecimento dos fretes, as greves de caminhoneiros (as ocorridas e as que entraram em pauta, mas não se efetivaram), a crise cambial, a crise hídrica, a crise política e a crise em quase todo âmbito possível. Ou seja, sempre nos é apresentado um novo fato relevante inesperado.

Isso nos leva a refletir sobre a extrema complexidade que observamos em viabilizar e operacionalizar qualquer negócio no Brasil. Ainda mais quando esse negócio depende do nosso precário sistema logístico.

Tal fato pode ser analisado sob a ótica da lógica do Cisne Negro, desenvolvida pelo filósofo e investidor Nassim Taleb. Ele discorre que, antigamente, acreditava-se que os cisnes eram todos brancos. E isso durou até a descoberta da Austrália, onde, pela primeira vez, a ave negra foi encontrada.

Assim, o conceito de cisne negro foi cunhado por Taleb para definir o que ignoramos por simples falta de conhecimento. O fato de o mundo inteiro acreditar que só existiam cisnes brancos mostra como o aprendizado é frágil e limitado quando ele é feito só por meio de observações e experiências. E uma pandemia, em um mundo globalizado como o nosso, nunca havia sido experienciada.

Ou seja, no contexto do Comércio Exterior, sempre, devemos estar preparados para o desconhecido, os chamados cisnes negros, em especial no mercado brasileiro, no qual eles perseveram em surgir. Por aqui, nos últimos anos, faltou lago para tanto cisne.

(*) Gabriel Laba é graduando em Administração pela Universidade Federal de São Carlos e técnico em Logística. Trabalha com compras nacionais e internacionais.

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