Ficção científica X ficção social: não são dicotomias

1

Etienne Du Jardin (*)

O mundo não é binário. E um dos nossos grandes erros é querer tratar assuntos complexos como se eles fossem binários. Não são! Inclusive, em casos de grande complexidade é provável que tenhamos abordagens (e pensares) diferentes para a mesma coisa. Pois entre o preto e o branco, temos uma gama gigantesca de tons de cinza.

Um dos assuntos complexos do momento se deu por conta do Richard Branson e Jeff Bezos e seus rolês no espaço. A discussão sobre homens bilionários “queimando” dinheiro para explorar o além-Terra na maior crise sanitária da atualidade, onde países subdesenvolvidos se afundam em crise econômica e nosso legado ambiental é terrível por conta da exploração de recursos naturais, era certo. Eu não tinha dúvida de que isso aconteceria.

Li alguns posts sobre isso, onde se falava do abismo das desigualdades no planeta e questionando se esses bilionários também não deveriam estar preocupados em resolver problemas sociais através de soluções de impacto, e concordo com esse questionamento. 

Mas também acompanhei os fóruns de ciência no dia do lançamento e sei o quanto uma iniciativa assim é importante para o avanço tecnológico do planeta, já que são as viagens ao espaço – e a ficção científica – que moveram grande parte das inovações do mundo nos últimos 50 anos. Sem falar que é a ciência falando, em um ano onde existem pessoas que acreditam que a terra é plana, né?

Ambas as abordagens estão certas.

E podemos abrir mais um monte de outros prós e contras sobre o tema e discutir por horas. Essa é a tal gama cinza à qual me refiro.

O que eu gostaria de verdade, é que assim como na ficção científica, onde imaginamos como deveria ser o mundo e colocamos toda energia possível para realizar tal qual pensamos – o que é ótimo, pois foi graças à ficção científica dos desenhos e filmes dos anos 60, 70 e 80 que as vídeochamadas estão aí e tenho uma startup de live commerce, onde a venda acontece em real time por vídeo dentro de uma telinha que cabe na mão), também buscássemos a ficção social com tanto empenho. E paixão.

Que as pessoas, principalmente os bilionários, fossem capazes de imaginar uma sociedade mais justa, equânime e diversa, onde a tecnologia, recursos e inovações são para todas e todos e que essa Ficção Social fosse nosso guia. Que trabalhássemos todos os dias e todo o tempo para realizar isso. Pois se é legal estar perto dos outros planetas, imaginem só o quão incrível seria se ninguém mais morresse de fome e frio um dia.

(*) Etienne Du Jardin é cofundadora e CPO da Mimo Live Sales, primeira plataforma de Live Commerce da América Latina. Ela é responsável pela área de produto e inovação da startup.

Comentários

Comentários

1 COMMENT

  1. Elysium deve ter começado assim, com bilionários testando os limites da tecnologia, indo ao espaço e depois deixando a Terra suja, superpopulosa e doente pra morar numa Alphaville orbital.

Deixe uma resposta