Impactos para o Brasil com a possível desaceleração da economia chinesa

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Henrique Reis (*)
Desde 2009 a China é o principal parceiro comercial do Brasil, o país é a principal origem e destino das transações internacionais brasileira, a corrente comercial entre ambos atingiu a marca de US$ 135,5 bilhões em 2021.

Sem dúvidas, uma desaceleração da economia chinesa não só traria impactos para o Brasil, mas para o mundo. Entretanto, no meu ponto de vista, não há motivos para alarde, porém de muita atenção.

É claro que as commodities possuem grande supremacia na pauta das exportações do Brasil para a China, entre os cinco principais produtos exportados estão a soja, minério de ferro, petróleo, carne bovina e celulose. Uma contração na economia chinesa certamente atingiria diretamente esses setores, por exemplo, se olharmos para o setor agro, caso a China reduza seu volume de compra, esses produtores teriam que estar preparados para vender o excedente, mas isso não ocorreria da noite para o dia. No ano passado, quando o governo chinês embargou a compra de carne bovina por alguns meses, foi possível ver os impactos negativos causados pela situação e a incerteza que ela gerou para o setor.

Um outro ponto que deve ser avaliado é o de que economias não vivem de um crescimento alto e acelerado para sempre, elas acabam atingindo limites e se ajustam. A China, por exemplo, cresceu por anos na casa dos dois dígitos e de maneira muito rápida, mas à medida que o país se desenvolve e sua economia se torna mais pujante, sua margem de proporção do crescimento diminui, nem sempre um período de desaceleração deve ser considerado como um caos econômico, por isso é importante acompanhar as medidas do governo para recuperação e quanto tempo uma possível crise poderia durar.

Vale considerar também, longe de mim querer fazer aqui uma comparação sobre qual modelo político é melhor, mas é fato que as medidas do governo chinês tem feito o país se desenvolver de forma acelerada nos últimos 40 anos, assim como os governos dos EUA, países da Europa e de algumas outras regiões tem administrado bem a estabilidade econômica de seus países, ou seja, se observamos, as crises econômicas mais duradouras estão em países historicamente mais fechados ou que vivem uma longa instabilidade política, isso independe de seu modelo político.

Vamos voltar para as relações comerciais sino-brasileiras, recordes na balança foram atingidos nos últimos anos, o Brasil obteve frequentes e consideráveis superávits nesta relação, um retrocesso não significará necessariamente um caos, esse crescimento não será eterno, a produção das commodities também é limitada e um dia atingirá seu pico, neste caso a maior preocupação por parte do nosso governo dever ser o de diversificar a pauta de exportação para a China, assim como de potencializar parceiros comerciais, além de buscar novos mercados. Estou certo que para alguns setores isso já vem sendo feito.

É de conhecimento de todos que o momento do comércio global não é favorável e isso realmente assusta o mercado, gera incertezas e acende um sinal de alerta, passamos por um momento muito crítico da pandemia, vivenciamos um conflito militar na Europa, testemunhamos os altos preços dos fretes internacionais, alta do barril de petróleo e com tudo isso a crise de abastecimento global. Sendo muito dependente das commodities, é razoável o Brasil se preocupar, pois o país fica exposto aos riscos gerados pelas oscilações do mercado internacional.

Um ponto de esperança para o mercado é o fato de que o governo chinês não está medindo esforços para conter uma possível crise. Dados recentes mostram que sua economia digital atingiu a marca de US$ 6,76 trilhões em 2021, isso é bom, mas o melhor é que os investimentos em P&D neste setor continuam fortes.

Vamos também levar em conta, como já mencionado aqui, que os desafios econômicos é uma ameaça comum ao mercado global e requer a cooperação de todos, foi por essa razão que no começo do mês de julho, membros dos governos da China e dos EUA conversaram acerca da situação econômica mundial, ambos demonstraram preocupação e reconheceram a importância de manter a comunicação e a coordenação, visando a estabilidade das cadeias industriais e de suprimentos globais. Vale destacar que essa conversa não se deu por afinidade, mas principalmente pelos desafios enfrentados, sendo um dos principais entre eles o da inflação.

A China por sua vez, está focada no desenvolvimento de medidas que aumentem os investimentos em seu território, que estimulem o consumo e consequentemente gerem empregos, mas que não comprometam interesses de longo prazo ou venham a gerar oferta monetária excessiva, essa cautela é de extrema importância para não causar um efeito de “cobertor curto” aquele que quando cobrimos a cabeça, acabamos descobrindo os pés.

Para concluir, independente da situação internacional, o Brasil já vive grandes desafios, o país se aproxima de mais uma eleição presidencial, a qual tende a ser a mais badalada e espero que não, a mais tumultuada de todos os tempos. De toda forma, seja qual for o resultado, todas as esferas governamentais do país deverão trabalhar para mostrar ao mundo estabilidade política e consequentemente segurança econômica e comercial, pois sem um ambiente favorável o Brasil correrá sérios riscos de não permanecer no rol das principais economias do mundo, ou seja, neste e em outros pontos o país precisa fazer sua parte para seguir seu desenvolvimento ou até mesmo minimizar qualquer crise decorrente da situação externa.

 

(*) Henrique Reis – Bacharel em Relações Internacionais pela UNIFAI, Pós-graduado em Negociações Econômicas Internacionais pela UNESP e Gerente de Relações Internacionais no Grupo China Trade Center.

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