“O Brasil precisa ter um olhar mais atualizado e atento para a África”, diz CEO do Standard Bank

0

Da Redação 

Brasília – A África é a última grande fronteira de crescimento no mundo, com potencial para ser a “nova China” e o  Brasil precisa ter um olhar mais atento para a África e para  ser bem sucedido numa política de aproximação e dinamização de negócios com o continente africano, o país tem que entender a agenda africana. Se o Brasil não buscar meios de participar mais ativamente desse gigantesco mercado, outros o farão. A avaliação foi feita pela CEO do Standard Bank no Brasil, Natália Dias, em entrevista exclusiva ao Comexdobrasil.com.

Profissional com uma solida carreira e profundo conhecimento sobre a realidade africana, Natália Dias lembra que o Brasil sempre teve uma política externa que levou  em alta consideração os países africanos mas nos últimos  anos o país perdeu um pouco desse foco: “só para citar alguns exemplos, o Brasil foi o primeiro país a reconhecer a independência de Angola, possui uma das maiores coberturas diplomáticas no continente africano, mas nos últimos anos a política externa, de uma maneira geral, perdeu um pouco de força, e em relação à África ela vem diminuindo. Precisamos resgatar isso”.

Mas as perdas no relacionamento com o continente africano não se restringiram ao capital diplomático, num retrocesso que começou a se delinear nos últimos anos do governo de Dilma Rousseff e se aprofundou na gestão de Jair Bolsonaro, com Ernesto Araújo à frente do Itamaraty, quando o governo decidiu fechar as embaixadas em Serra Leoa e na Libéria, em maio de 2020. Elas também atingiram o intercâmbio comercial com os países da região. 

E isso aconteceu num contexto em que  o fluxo de comércio exterior da África passou de US$ 247 bilhões no ano 2000 para cerca de US$ 1 trilhão. Enquanto isso, o intercâmbio do Brasil com os países africanos, que atingiu seu auge em 2013, quando chegou a US$ 27 bilhões, somente caiu, devido a uma forte redução das importações de petróleo, fechando 2020 com um total de US$ 11 bilhões.

Segundo a executiva, apesar da queda na corrente de comércio, as exportações brasileiras se mantiveram estáveis, tendo somando US$ 7,7 bilhões em 2020, com a manutenção das vendas para os países da África Subsaariana, região onde o Standard Bank está presente em 20 países.

Com o fluxo comercial estagnado, o Brasil continua exercendo um papel secundário também no quesito investimento estrangeiro direto nos países africanos. Assim como aconteceu em relação ao comércio exterior, a partir do ano 2000 a África vem vivendo um verdadeiro boom em matéria de atração de capital externo, passando de menos de US$ 7 bilhões ao ano para uma média anual entre US$ 40 bilhões e US$ 50 bilhões e o Brasil tem uma parcela pouco significativa nesses investimentos, com um estoque da ordem de US$ 15 bilhões.

São investimentos realizados por empresas como a Vale, que explora a mina de carvão de Moatize e uma ferrovia que liga a mina ao Terminal Portuário Multiusuário de Nacala, os maiores investimentos brasileiros no continente. A construtora Odebrecht, a Weg e a Marcopolo também estão presentes nos países africanos.

Tanto em termos de comércio quanto em relação aos investimentos, o Brasil tem grandes oportunidades a explorar no continente africano, conforme destaca a executiva: “existe um grande potencial ainda não explorado, principalmente se levarmos em consideração que os produtos brasileiros, as soluções encontradas para atender ao mercado nacional, se aplicam muito melhor na África que uma solução que venha pronta do mundo desenvolvido. Temos muitas soluções do ponto de vista de indústrias e de produtos, como por exemplo todo o nosso grande carro-chefe, o maquinário e equipamentos agrícolas, em plenas condições de serem usados na África. Existe um potencial enorme não só de aumentar o volume financeiro mas principalmente de diversificar a nossa pauta exportadora, ainda bastante concentrada em produtos básicos, como o açúcar e proteína animal”.

Ao mesmo tempo em que defende uma maior diversificação das exportações, com a inclusão de produtos de maior valor agregado, Natália Dias considera relevante, no curto prazo, que o Brasil busque aumentar as vendas de produtos agrícolas para os países africanos. 

Para alcançar esse objetivo, ela diz que os grandes produtores agrícolas precisam conhecer melhor o ambiente de negócios na África: “por desconhecerem esse mercado, eles  acabam vendendo toda a sua produção para as grandes tradings como a Bunge, ADM, Louis Dreyfus, que têm grande presença no continente africano e vendem os produtos brasileiros com duas ou até três vezes a margem, porque os preços na África são ainda muito caros devido ao fato de que o continente é um grande importador líquido de alimentos mas também à sua infraestrutura precária, que contribui para encarecer os produtos. Esse valor poderia estar sendo capturado pelas empresas brasileiras e em nosso engajamento buscamos fazer essa intermediação e o Standard Bank procura agir mostrando quem são os grandes importadores do lado africano”.

A vasta expertise acumulada durante o período em que atuou no Standard Bank como diretora de Energia e Infraestrutura para a América Latina e posteriormente como CEO da instituição, cargo que ocupa desde 2018, Natália Dias adverte que nenhuma estratégia em relação à África focada exclusivamente na exportação tem sustentabilidade no longo prazo: “sempre falo que o Brasil precisa entender que para ser bem sucedido numa política de aproximação e dinamização de negócios com a África é necessário conhecer a agenda política africana. A África quer reduzir a dependência de importação e nesse contexto tem uma prioridade muito grande de fomentar a produção local, industrializar o continente, aumentar o comércio intra-africano que hoje é ainda muito baixo, gerar riqueza dentro do continente e fazer a transição para fontes renováveis de energia. Nesse domínio, a África enfrenta uma cobertura de eletricidade ainda muito baixa para os padrões mundiais e uma matriz que é predominantemente suja. Eles têm uma meta muito agressiva de até 2050 fazer a transição e ter 50% de energia renovável e para isso estão investindo muito em fontes solar e eólica. Essa é a agenda africana”.

Para conquistar espaços no concorrido e florescente mercado africano em médio prazo, qualquer empresa brasileira precisa pensar em começar a produzir dentro do continente africano, passar a integrar as cadeias de valor, levando em consideração que a África é um destino estratégico e, sobretudo deixando de ver o continente com um olhar do passado, através do qual a África era vista, em matéria do agronegócio principalmente, como um potencial concorrente.

Segundo Natália Dias, “o fato é que se o Brasil não contribuir para o desenvolvimento da agricultura naquele continente, se não lutar para desenvolver esse mercado, outros farão. Temos condições porque dominamos a tecnologia da agricultura tropical e 60% de toda a terra agriculturável do mundo está localizada na África. As grandes  tradings asiáticas como a Wilmar,  a New Holland e a Olam já estão comprando meios de produção na África para assegurar o acesso às commodities agrícolas e a China, o grande consumidor e importador mundial anunciou investimentos para produzir soja na Etiópia visando reduzir a dependência da importação brasileira. Em minha opinião, o Brasil tem que ser protagonista nesse movimento”.

Da mesma forma que jamais viu na África um potencial concorrente do Brasil no agronegócio, a CEO do Standard Bank igualmente não vislumbra uma competição direta com os chineses no continente africano. 

Para ela, “se levarmos em consideração que a África foi a região do mundo que mais cresceu nos últimos 20 anos, depois da Ásia emergente, com uma taxa anual média de 4,36% contra 3% do crescimento médio mundial, e que países da África Oriental, como a Etiópia, que são economias mais diversificadas, estão crescendo 10% ao ano  há mais de dez anos, pode-se concluir que esse crescimento tão grande cria um vasto mercado em que existe espaço para todos os atores terem o seu papel. Conforme disse, o Standard Bank está presente em 20 países da África Subsaariana, e também nos Estados Unidos, Europa, no Brasil, China e nos Emirados Árabes e todos esses escritórios têm como objetivo primeiro financiar o fluxo de comércio exterior dessas regiões com a África e também financiar os investimentos estrangeiros diretos de multinacionais vindas dessas regiões no continente africano. Assim, reitero, dado ao tamanho das economias e do crescimento acelerado, na África existe espaço para todo mundo ter o seu papel”.

Observadora atenta da cena africana, Natália Dias reconhece que a China “talvez tenha entendido, mais do que outros países, a relevância que a África pode ter no curto prazo”. Em sua opinião, “de fato, os chineses têm feito investimentos massivos não só porque a África pode ser um grande fornecedor de matérias-primas de que eles precisam, mas também por ser uma relevante alternativa para o fornecimento de alimentos dos quais são também grandes importadores líquidos”

Em sua análise, a executiva diz que a África está passando por um processo de desenvolvimento que talvez a própria China tenha passado, anos atrás. A África combina um crescimento populacional muito forte, uma migração muito grande do campo para a cidade, uma população que é extremamente jovem, com uma média de 19,7 anos, aliados a um forte aumento do consumo das famílias, da ordem de 4,5% ao ano, muito mais elevada que o crescimento populacional, da ordem de 2,1%, gerando um forte aumento do PIB per capita.

Nesse mercado em forte expansão, Natália Dias vê o Brasil “um passo atrás, assim como os Estados Unidos”, mas reconhece que o país tem condições de conquistar seus espaços no continente africano: “temos muitas das soluções de que a África necessita, até porque talvez passemos por problemas que são semelhantes do ponto de vista de desenvolvimento, de tecnologia. Temos muito a oferecer à África para ter um maior engajamento. O que precisamos, e é o que o Standard Bank tem feito, é ter uma atuação conjunta visando desmistificar a África para o empresariado brasileiro, que tem muito desconhecimento e até certo ponto um pouco de preconceito, porque não conhece a realidade africana. A visão predominante aqui no Brasil é de que a África é um continente que está em constante crise humanitária e depende da ajuda externa e de doações, e isso de fato não é a África do século 21. O Brasil precisa se atualizar com relação às oportunidades na África, conhecer seu crescimento e toda essa dinâmica demográfica que está mudando o continente, se informar sobre a questão do crescimento  sustentado do PIB”.

Graças a grandes descobertas de commodities realizadas nos últimos anos, cerca de 30% das reservas de recursos naturais do planeta estão na África,  e o continente detém, entre outros, 11% de todas as reservas de petróleo, e esses números mudam a cada descoberta.

Um exemplo concreto aconteceu em Moçambique, que descobriu recentemente reservas de gás natural equivalentes às do Catar. São 300 trilhões de pés cúbicos de gás natural que farão do país, em alguns anos, um dos cinco maiores produtores de gás natural do mundo. Só no ano passado, o Standard Bank liderou um financiamento a projeto no valor de US$ 15 bilhões para serem aplicados em uma dessas reservas de gás natural que está sendo desenvolvida pela francesa Total.

E a “revolução” em curso na África não para aí. Segundo Natália Dias, “existem outras duas tendências que precisamos observar e que vão fazer com que a África mude de patamar. São o desenvolvimento tecnológico e o  barateamento da tecnologia. Na área de energia, por exemplo, é muito mais caro desenvolver uma matriz energética como a do Brasil, baseada na energia hídrica e que precisa ser transportada porque está distante dos centros consumidores, do que a matriz que vem sendo implantada pela África, que chegou mais tarde nesse jogo e está indo direto para uma energia distribuída, a solar e a eólica. Chegar mais tarde no jogo significou, para a África, optar por processos de produção mais avançados. Outro dado é que a disseminação da tecnologia tem gerado uma inclusão da população africana que não é trivial. Hoje, 80% dos habitantes da África são cobertos pela tecnologia 3G, com acesso à internet e o continente vem fazendo a migração para o 4G. Há um crescimento enorme no número de usuários da internet e um aumento expressivo no número de pessoas que eram desbancarizadas e que agora estão indo direto para um modelo de se associarem às fintechs, de fazer seus pagamentos por SMS e outros meios. E temos um dado impressionante: a África já responde por 50% das transações com dinheiro digital em todo o mundo e esses talvez sejam dados que ainda não estejam no radar”.

A forte migração do campo para a cidade é outro aspecto da profunda mudança pela qual passa o continente africano e é também um gerador de grandes oportunidades de negócios. 

Conforme atesta a CEO do Standard Bank, “entre 2010 e 2020, 180 milhões de pessoas migraram para as cidades e hoje 44% da população africana é urbana e a estimativa é de que até 2030 tenha uma migração de 800 milhões de pessoas, com 60% dos africanos passando a viver nas cidades. Uma migração desse porte traz consigo vários efeitos. Um deles é que aumenta de forma considerável o número de cidades com mais de um, dois e três milhões de habitantes, uma população que vai consumir outros tipos de bens e serviços, mais bancarizada, com mais acesso à internet. Todos esses são fatores geradores de riqueza”

Natália Reis ressalta que as empresas brasileiras têm um inesgotável leque de oportunidades de negócios na África mas existe uma condição crucial para que elas sejam exploradas, a apresentação de bons projetos. Segundo ela, “apesar da redução do financiamento governamental brasileiro, não faltaram recursos para a financiar projetos na África. O que faltam são bons projetos e o próprio Standard Bank, enquanto banco comercial, tem um excesso de liquidez e de capital para investir em bons projetos. Falando especificamente sobre o Brasil, o que posso atestar é que não raro os projetos que chegam a nós têm um nível muito embrionário em termos de desenvolvimento de projeto, sem atender aos Princípios do Equador (um conjunto de critérios socioambientais de adoção voluntária por instituições financeiras em nível mundial, referenciados nos Padrões de Desempenho sobre Sustentabilidade Socioambiental da International Finance Corporation – IFC) em  relação a projetos de infraestrutura. Assim, é necessário que o planejamento e a estruturação do projeto sejam bem feitos e atinjam os princípios que vão assegurar a bancabilidade. Além disso, para fazer um projeto na África é preciso ter assegurado o take off, ou seja, a compra da mercadoria. Precisamos amarrar todas as pontas. Existem recursos existem de sobra para investir nos projetos na África e estamos sempre à procura de bons projetos”.

Para revigorar e dinamizar as relações com a África, o Brasil tem que remover dois grandes entraves, conforme analisa a CEO do Standard Bank: “um é o desconhecimento do continente africano pelo empresariado brasileiro. Entrevistas como esta contribuem para disseminar informações atualizadas sobre a realidade africana. E o outro desafio é desmistificar o continente na percepção de risco. Risco existe em todo o mundo, mas com relação às economias africanas essa percepção é maior que a realidade. Hoje, 20 países africanos são mais bem colocados que o Brasil no ranking Doing Business e multinacionais do mundo inteiro estão fazendo negócios na África”. 

Ao concluir, Natália Dias destaca que “o Brasil precisa ter um olhar de maior conhecimento sobre a África e vamos estar sempre prontos para ajudar os setores público e privado brasileiros, jogando luz e colaborando para não deixarem passar as grandes oportunidades proporcionadas pelo desenvolvimento do continente africano”.

Comentários

Comentários

Deixe uma resposta