O futuro do Mercosul com um possível Acordo de Livre Comércio entre China e Uruguai

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Henrique Reis (*)

No início de setembro, veio à tona a notícia sobre o interesse uruguaio em criar um acordo de livre comércio com a China, algo que vai contra o Mercosul, pois o bloco só permite que seus membros negociem em conjunto com terceiros.

Teriam os demais membros do Mercosul interesse em negociar um acordo com a China?

Pelas informações vistas e levantadas, a negociação em bloco é improvável, pois Argentina e Paraguai não apoiam a posição uruguaia, já que tal atitude representa a quebra de uma regra essencial do Mercosul e consequentemente a perda da razão do bloco existir.

Em 2021, o Mercosul completou 30 anos, sem dúvidas contribuiu e segue sendo importante para o comércio regional, porém é evidente que perdeu forças há anos e não alcança a evolução tão esperada, ocorre que quando o bloco não cumpre seu papel da maneira esperada, surgem oportunidades para outros atores e sabemos que a China está presente e muito ativa na região.

O ministro de Desenvolvimento Produtivo da Argentina, Sr. Matías Kulfas, disse que o Uruguai deve escolher “China ou Mercosul”, enquanto o chanceler paraguaio, Sr. Euclides Acevedo, afirmou que seu país “observa inquieto a decisão do Uruguai”.

Além do protecionismo argentino, um outro fator que contribui para que não haja um acordo em bloco é que o Paraguai reconhece a independência de Taiwan e mantém relações com ele, acontece que a China não aceita relações com países que reconheçam Taiwan.

E o Brasil, o que pensa sobre tudo isso?

O presidente Bolsonaro e outros membros do governo não se manifestaram contra a atitude do governo uruguaio, a verdade é que desde que o Brasil assumiu a presidência rotatória do Mercosul em julho deste ano, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) e o governo já se mostravam a favor de uma flexibilização das regras do bloco, neste caso são favoráveis em adotar medidas com foco na modernização do acordo regional.

Outro fator que talvez reforce a posição brasileira é que dos 20 blocos de integração que há no mundo, o comércio exterior do Mercosul representa 14,9% do seu PIB, enquanto a média mundial é de 33%.

Não se vê um desejo mais enfático em uma maior aproximação dos países membros, talvez devido as ideologias políticas, basta notar que o presidente Bolsonaro e o presidente argentino, Alberto Fernández, até o momento não fizeram esforços para estabelecer um relacionamento estreito. Ao participar de um evento no final de setembro, o ministro Paulo Guedes disse: “Nós não vamos sair do Mercosul, mas não aceitaremos o Mercosul como ferramenta de ideologia. O Mercosul é uma plataforma de integração na economia global. Se ele não entregar esse serviço, nós vamos modernizar e os incomodados que se retirem”. Sua frase se refere a resistência do governo argentino em aceitar a modernização do bloco que incluiria a redução da tarifa externa comum (TEC), porém ela reforça a evidência da falta de esforços entre as duas maiores economias do bloco em prol de um fortalecimento.

A substituição de antigos acordos por novos pode ser uma tendência?

Há alguns anos com eventos como o fim do Acordo de livre-comércio da América do Norte, na sigla em inglês (NAFTA) e com o tema do BREXIT, termo utilizado para a saída do Reino Unido da União Europeia, alguns especialistas falavam sobre um possível processo de “desglobalização”, porém há evidências de que a globalização é um caminho sem volta no que tange as relações comerciais entre os países, velocidade das informações e o trânsito de pessoas por todo o mundo.

Prova disso é que logo a América do Norte criou um acordo mais atual, denominado USMCA, a UE e o Mercosul, em 2020, avançaram nas negociações de um acordo e também houve o surgimento do The Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP), bloco que inclui as principais potências asiáticas e da Oceania, esses movimentos apontam para o dinamismo das relações internacionais, há mudanças com o passar do tempo, vivemos em um mundo interligado e interdependente.

Com isso lhe convido a refletir sobre a posição do Uruguai, com o Mercosul estagnado, há que escolher seguir por um entre dois caminhos, abandonar o Mercosul ou propor uma reforma para ele.

Quiçá a tendência seja de reforma dos acordos antigos que não funcionem da forma planejada, isso pode valer para o Mercosul, criando maior flexibilidade nas negociações com terceiros e permitindo algumas exceções com as devidas ressalvas como no caso do Uruguai, é necessário acompanhar as mudanças nas relações internacionais, se a UE durante sua jornada de 64 anos passou por ajustes, precisou mudar e se adequar, por que não seria viável ao Mercosul fazer o mesmo?

É fato que a pandemia mostrou que é importante haver um bloco regional unido e organizado, que funcione e seja capaz de coordenar suas ações, a crise sanitária trouxe um cenário de escassez da cadeia de suprimentos e alta recorde dos fretes internacionais, esses indicadores apontam que a criação de soluções regionais é de suma importância, a provisão de produtos que atendam as necessidades básicas da região deveriam ser frutos de um planejamento coordenado entre os países da América do Sul, como  desenvolvimento de polos industriais para produção daquilo que cada um demonstra vantagem, não é fácil e nem simples, mas deveria ser o caminho a seguir.

(*)  Henrique Reis – Bacharel em Relações Internacionais pela UNIFAI, Pós-graduado em Negociações Econômicas Internacionais pela UNESP e Gerente de Relações Internacionais no Grupo China Trade Center 

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