O mundo e o mercado corporativo estão voltando ao presencial; mas onde estão as mulheres?

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Monica Schimenes (*)

Quando a pauta da equidade de gênero está no seu roteiro, é muito comum discutir sobre o assunto com outros colaboradores e assim pensar alternativas de como lidar com essa situação, de preferência transformá-la. Mas, há dias em que nos deparamos com momentos simbólicos que nos fazem refletir sobre as lutas de gênero com mais intensidade. Mesmo reconhecendo diversas conquistas das mulheres ao longo dos anos, percebemos que ainda temos muito a caminhar para alcançar o nosso devido lugar no mercado corporativo: ao lado dos homens, em posição de igualdade.

Foi retornando de uma reunião de negócios em Curitiba-PR, que me deparei com uma dessas situações que mexe tanto com o subconsciente, que nos faz ter a certeza de que devemos permanecer lutando e disseminando essa discussão no mundo em busca de transformação.

No ônibus que faz o transporte para a ponte aérea, após acompanhar um evento e estreitar o contato com um dos novos clientes da agência em que sou CEO, tive meus primeiros momentos de descanso. Relaxei e me concentrei no que estava ao meu redor. Comecei a observar as pessoas que estavam ali. Naquele momento, chamei o produtor que estava comigo e questionei ‘você percebeu?’, então ele me olhou e respondeu ‘a quantidade de homens que há ao nosso redor?’. Triste e inconformada, porém ciente da luta que temos que continuar traçando daqui para frente, disse ‘sim’.

Daquele momento até chegar em casa fui refletindo sobre a questão: onde estão as mulheres na retomada? O mundo retornou, os aeroportos estão cheios, os voos lotados, as reuniões e ações do mercado corporativo estão acontecendo, mas e as mulheres? Elas conseguiram retomar após a pandemia? Em um voo lotado das 19h30 para São Paulo, com público masculino em peso, exceto por uma ou outra mulher que como eu não se viam representadas pelo público geral, eu fui me fazendo diversas perguntas e tentando encontrar formas de respondê-las.

Com toda a certeza, a pandemia e o confinamento social afetaram a saúde mental dos brasileiros. Um estudo realizado pelo Instituto de Psiquiatria da USP, no primeiro semestre do ano passado, já apontava para um problema que poderia se agravar: um número grande de pessoas apresentou sintomas de depressão, ansiedade e estresse na quarentena. As mulheres representam 40,5% dessas pessoas com depressão e mais de 30% na categoria de estresse e ansiedade. Os achados da pesquisa revelam que a exigência do perfil multitarefa foi um dos agravantes dos sintomas apresentados, além disso, revelou que mulheres que moram sozinhas e não tem filhos também sentiram os impactos na saúde mental.

As desigualdades estão presentes em diversos mercados, inclusive no mundo do trabalho, há muita reconstrução histórica até que possamos afirmar que revertemos a triste realidade que vivemos: as desigualdades no país têm gênero, cor e, até mesmo, idade. Uma Pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), feita com base em dados do PNAD Contínua entre 2020 e 2021, mostrou que mulheres, negros e pessoas jovens foram as mais afetadas com a pandemia.

Conhecendo a realidade e mentalidade do imaginário do país, além de compreender o contexto da construção histórica patriarcal do Brasil e do mundo, sabemos que por muito tempo as mulheres foram excluídas do acesso à educação e do mercado de trabalho. Com a chegada da pandemia um retrocesso foi observado nos dados de oportunidades para mulheres. A Pesquisa ‘Sem Parar: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia’, realizada pelas organizações Gênero e Número e SOF Sempre Viva Organização Feminista no ano de 2020, entrevistou mais de 2.600 mulheres e revelou dados que respondem a falta de representatividade feminina na retomada.

As mulheres sempre foram as principais responsáveis pela casa e os cuidados com a família. Após o início da quarentena, mais de 50% das entrevistadas da pesquisa responderam que passaram a cuidar de alguém na pandemia e 72% delas afirmaram que a necessidade de monitoramento e companhia aumentou. Das que conseguiram manter seus empregos, mesmo estando em casa, 41% afirmaram que precisaram trabalhar mais. Outro dado importante, é que 40% das mulheres afirmaram que a pandemia e a situação de isolamento social colocaram a sustentação da casa em risco.

Como costumo dizer: ‘a luta pela equidade de gênero é um dever de todos’. Nós precisamos dos homens junto com a gente nessa luta. Essa luta precisa de patrocinadores de ambos os sexos. Quem serão os patrocinadores que vão ajudar as mulheres a sair de casa novamente? Além das oportunidades de trabalho, as mulheres precisam ser olhadas e questionadas sobre como se sentem e o que precisam, para assim poder voltar a sonhar com uma carreira. A saúde mental é fundamental para que elas possam voltar a enfrentar os desafios das suas rotinas profissionais.

(*) Mônica Schimenes, é fundadora e CEO da MCM Brand Experience, grupo de comunicação integrada com atuação nacional e internacional, comprometido com a performance e responsável com a diversidade e inclusão.

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