O mundo em constante transição: a relação entre tecnologia e o mercado de trabalho

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Henrique Reis (*)

 

O  maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam. (Platão)

Aqui faço o exercício de imaginar essa frase adaptada em outro contexto para os dias atuais:

O maior castigo para aqueles que não se interessam por avanços tecnológicos e pela era digital é viver em um mundo cada vez mais tecnológico e digital. (Platão 5.0)

Sou uma pessoa totalmente leiga em assuntos tecnológicos, mas que gosta e faz uso da tecnologia no dia a dia, acredito que uma grande parcela da população mundial seja como eu.

Sabemos que hoje, já é realidade a falta de mão-de-obra qualificada para o setor, as previsões é que nos próximos anos muitas vagas serão abertas e esse déficit só aumentará.

Em uma pesquisa da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação (Brasscom), os números mostram que, até 2024, serão necessários 70 mil profissionais ao ano para ocupar todas as vagas geradas. No entanto, o cenário de formação é outro. Por ano, o Brasil capacita apenas 46 mil pessoas aptas para trabalhar na área de TI, o déficit é de 24 mil.

Não sei se alguém já refletiu de forma mais profunda sobre a razão, eu penso que não seja apenas uma questão de incompetência da maioria, mas de tempo. O mundo atual não tem tempo a perder, de forma geral a busca na atualidade é por profissionais prontos.

Eu sou uma pessoa que tive que me esforçar para obter conhecimento, levei tempo para isso, infelizmente não tenho a facilidade de algumas pessoas que conheço e admiro, as quais aprendem ao ouvir apenas uma vez, outras pelo simples fato de ler sobre determinada matéria e por aí vai, são os autodidatas.

Meus pais tinham a meta de fazer com que meus irmãos e eu chegássemos até o ensino médio, para eles isso seria o suficiente para nos sustentarmos, era também o que eles podiam financiar, eu até fiz o ensino médio técnico por uma escola do Estado, me formei aos 17 anos como técnico em contabilidade, profissão que nunca exerci.

Talvez, meus pais não imaginavam, mas o mundo passa por constantes mudanças, para me adaptar a uma era mais globalizada e exigente, anos mais tarde tive que estudar inglês, espanhol, cursar faculdade, pós-graduação, fazer intercâmbio, cursos, etc., um ponto importante: para custear tudo isso, eu tive antes de tudo que trabalhar, essa era a minha realidade.

Levou tempo, porém eu fui capaz de aprender, mas acreditem, a melhor faculdade que tive foi o trabalho, como eu aprendi trabalhando. Aprendi coisas que nunca imaginei, na área de comércio exterior, vendas, logística, marketing, organização de eventos e por aí vai.

Sem dúvidas, conhecimento é algo valioso demais, no entanto ele não é obtido apenas na faculdade, ela é uma parte do processo, a prática sempre será o ponto essencial. Comento com minha esposa que a bagagem profissional que tenho hoje, teria muito mais peso há 15 ou 20 anos, ao olhar qualquer vaga atual e suas exigências de qualificações, percebo que o fato de falar dois idiomas e ter pós-graduação é considerado algo “na média” e olhe lá, são outros tempos.

Como comentado, o mundo segue com suas constantes mudanças, por exemplo, quando penso que precisei fazer curso de informática para poder usar um computador e hoje testemunho meus filhos desde os 2 anos manejando um smartphone mais potente do que os computadores que eu usava nos cursos, as mudanças ficam muito evidentes e velocidade com que elas acontecem mais ainda.

A mensagem que quero deixar é que você não precisa ser um expert para se interessar por tecnologia, tão pouco desistir dela por achar tudo tão complicado, eu sou leigo e procuro entender as mudanças e me conectar com pessoas da área para aprender no meu tempo e do meu jeito, já que com as experiências obtidas até aqui, posso afirmar que:

  • Não há nada que não possamos aprender, ao menos que não queiramos;
  • O ser-humano é adaptável, por isso o homem vive nos lugares mais inóspitos do nosso planeta, se adaptam ao calor, ao frio extremo, altitudes, lugares isolados e em inúmeras outras situações, não será diferente com um mundo cada vez mais tecnológico;
  • Todos precisam de oportunidades, só as tendo somos capazes de colocar em prática as nossas capacidades e de realmente saber onde nos encaixamos;
  • Sobre um dos pontos da diversidade, as empresas precisam saber administrar o choque de gerações, buscar o equilíbrio entre TEMPO X TRAJETÓRIA, podemos dizer que para as gerações mais novas e imediatistas as coisas funcionam como uma corrida de 100m rasos: largou, correu e chegou, pronto em 10 segundos a prova está concluída, vamos para a próxima! Eles aprendem rápido, cresceram inseridos na tecnologia e se adaptam rapidamente e de forma fácil as constantes mudanças, enquanto para as gerações mais antigas é uma maratona, passo a passo eles vão completando sua trajetória até alcançar seu objetivo que é completar a corrida, quando conseguem, estão cansados, precisam de um tempo para partir para outra;
  • Tenha EMPATIA! Busque sempre entender o outro lado, saber se relacionar sempre foi, segue sendo e será essencial em qualquer fase da história humana;
  • Por fim, lembram que falei da importância do conhecimento? Muitas vezes achamos ter mais ou menos conhecimento em relação as outras pessoas, especialmente no ambiente corporativo, mas na realidade o que mais importa é a multiplicidade de conhecimento que há em uma equipe, faço aqui uma analogia com o futebol, esporte que particularmente gosto muito, você pode até formar um time apenas com jogadores que tenham características de ataque, vai fazer muitos gols, mas por não saber defender irá acabar levando muitos gols. Um time equilibrado, com conhecimentos diversos e que se complementam tem maiores chances de sair vencedor. Então não se preocupe em conhecer tanto quanto a outra pessoa, mas em buscar conhecimentos e habilidades que somem aos dela.

Eu acredito que a falta de mão-de-obra qualificada para ocupar os novos cargos seguirá por algum tempo, até emergir uma nova geração de profissionais já mais inserida e habituada ao mundo tecnológico e digital. Também creio que a tecnologia está aí e é para todos, nesse meio tempo, as empresas do setor precisarão ter mais paciência, oferecer e dar tempo para treinamento, se preocupar em reter mão-de-obra, saber mesclar profissionais que tenham conhecimentos técnicos com profissionais que possuam soft skills, ou seja, criar e moldar seus times.

Com a ascensão tecnológica e o grande interesse por esta área, é provável que daqui a algumas décadas a preocupação será em ter pessoas para realizar as tarefas manuais, incluindo aquelas consideradas menos valorizadas, mas que tanto necessitamos, como as de pintor, marceneiro, construtor civil, profissionais de limpeza, entre outras. E se for para problematizar ainda mais, que ações deverão ser criadas para não permitir que até lá surja um abismo ainda maior separando as classes sociais? Em especial as pessoas de famílias pobres e as que vivem abaixo da linha da pobreza sem acesso à educação e a tecnologia, isso é algo para se pensar.

Uma dica! É provável que as empresas devam ter profissionais para pensar e trabalhar as possíveis soluções desses problemas junto aos governos e sociedades, será preciso caminhar juntos, já que problemas sociais é comum a todos.

Encerro o texto com a seguinte frase:

“O analfabeto do século XXI não é aquele que não sabe ler e escrever, e sim aquele que não consegue aprender, desaprender para então reaprender.” (Alvin Toffler)                  

(*) Henrique Reis – Bacharel em Relações Internacionais pela UNIFAI, Pós-graduado em Negociações Econômicas Internacionais pela UNESP e Gerente de Relações Internacionais no Grupo China Trade Center.

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