Pós-Brexit: Grupo de Trabalho Brasil-Reino Unido busca avanços em acordos e nas relações comerciais

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Brasilia – Visando o fortalecimento das relações comerciais entre Brasil e o Reino Unido e ações que possam permitir avanços em acordos, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) lançou, nesta quinta-feira (2), o Grupo de Trabalho (GT) Brasil-Reino Unido. Com o Brexit, saída do Reino Unido da União Europeia, o setor privado do Brasil identifica desafios e oportunidades no mercado britânico que demandam esforços de empresas e governos.

Dois pontos são considerados prioritários para a indústria nacional: formalizar um Acordo para Evitar Dupla Tributação (ADT) e o início formal de negociações para um Tratado de Livre Comércio entre o Mercosul e o Reino Unido.

“Mesmo em um momento tão complexo para a economia global, as exportações brasileiras para o Reino Unido cresceram 33% no primeiro semestre de 2021 em comparação com o mesmo período de 2020”, pontuou o superintendente de Desenvolvimento Industrial da CNI, João Emilio Gonçalves.

Para que a tendência se confirme, mantendo o crescimento, ele sugeriu que o grupo atue para concretizar ações possíveis de curto prazo e trabalhar nos objetivos mais complexos, de médio e longo prazo.

No lançamento virtual do GT, o secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, Roberto Fendt, parabenizou a iniciativa. “Temos mais de 800 empresas britânicas atuando no Brasil e uma série de oportunidades a serem aproveitadas.”

Ele informou ainda que o governo brasileiro estará aberto para receber sugestões e percepções do setor produtivo para construir, em diálogo, políticas públicas mais efetivas.

Por parte do governo britânico, o embaixador do Reino Unido no Brasil, Peter Wilson, destacou quatro temas prioritários. Além dos acordos já enfatizados pelo Brasil, ele acrescentou a questão da sustentabilidade e o apoio à entrada do país na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

“O Brasil é o maior país do mundo com quem não temos um acordo. Espero que possamos progredir neste ano. Será o que fará a diferença para as nossas empresas aqui”, avaliou.

Lançamento virtual do GT, com participação do secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia /Reprodução

Balança comercial entre Brasil e Reino Unido sofreu queda na última década

No panorama geral da balança comercial entre Brasil e Reino Unido, a relação comercial entre os dois países passou por uma queda acentuada. De 2011 para 2020, houve redução de 31% nas importações e de 51% nas exportações. No recorte apenas dos industrializados, o patamar se mantém, respectivamente, com queda de 31% e 44%.

Por isso, o gerente de Políticas de Integração Internacional da CNI, Fabrizio Panzini, ponderou que embora haja um cenário de crescimento em 2021, é preciso considerar a queda ocorrida durante uma década. “Um acordo de livre comércio é um grande caminho para a gente recuperar isso”, afirmou. Ele ponderou, no entanto, que é mais provável uma negociação mais célere em um acordo para evitar dupla tributação, oportunidade que deve ser aproveitada pelos países.

Nas exportações, o principal produto, que são os metalúrgicos não-ferrosos, teve redução de 48% no período de 2011 para 2020. Motores, peças e acessórios para veículos automotores sofreram redução de 68% nas saídas do Brasil para o Reino Unido, e o minério de ferro somou um decréscimo de 90%. Houve aumento, por exemplo, nos bens intermediários, com percentual 21%.

Por outro lado, nas importações de produtos siderúrgicos e de embarcações, locomotivas e material ferroviário ocorreu, de 2011 para 2020, um crescimento de 1034% e 551%, respectivamente. Isso evidencia que é importante para o Brasil buscar mais espaço no mercado britânico, com o objetivo de equilibrar melhor a balança comercial.

CNI defende medidas regulatórias para facilitar comércio

Para criar um ambiente favorável à exportações, a CNI pontuou a importância de algumas medidas com o Reino Unido, como medidas regulatórias para eliminar ou reduzir barreiras regulatórias e a assinatura de um Acordo de Reconhecimento Mútuo (ARM) entre os programas do Operador Econômico Autorizado (OEA).

“Mais de 80 países possuem esse tipo de acordo, que resulta em segurança e celeridade no processo de exportação e importação”, ressaltou a gerente de Diplomacia Empresarial e Competitividade da CNI, Constanza Negri Biasutti.

Quanto a barreiras de acesso ao mercado britânico, a Confederação identifica pontos que podem ser debatidos entre os países para evitar a criação de gargalos desproporcionais ao comércio. Nesse ponto, os representantes da CNI ressaltaram que a sustentabilidade é um caminho comum e também prioritário para a indústria brasileira e que regras que envolvam questões ambientais devem ser bem esclarecidas.

Em novembro, o Reino Unido sediará a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-26) em Glasgow, na Escócia. A CNI participará estimulando o debate sobre transição energética, precificação do carbono, economia circular e manutenção das florestas, além de mostrar ações das empresas e os modelos de negócios voltados à economia do baixo carbono no Brasil.

Indústria britânica vê oportunidades pós-Brexit e pandemia

Destacando que o Reino Unido, pós-Brexit, tem se lançado em acordos de livre comércio em todo o mundo, o diretor internacional da Confederação de Indústria Britânica (CBI, na sigla em inglês), Andy Burwell, apontou como desafiador o acordo com o Mercosul. “Mas a relação com o Brasil deve ser uma prioridade para o nosso governo e nossas empresas”, acrescentou.

Além disso, Burwell declarou no encontro que a aproximação com o país é uma oportunidade no contexto pós-pandemia e pós-Brexit. “O Reino Unido tem muita inovação o que vai levar ao crescimento da agenda limpa e verde. Nossas empresas estão focadas em capacitação, em desenvolver habilidades para o futuro.”

Em 2020 a CNI identificou que, pelo menos, 330 empresas olham o mercado britânico como oportunidade. O dado foi mostrado ao GT pela gerente de Serviços de Internacionalização da entidade, Sarah Saldanha. Ela ressaltou, porém, que a dificuldade de internacionalização de empresas brasileiras está relacionada à ausência de uma coordenação público-privada.

“Por isso temos construído iniciativas como o Global Trade Hub, uma plataforma que tem como essência a inovação na coordenação da oferta de serviços [para internacionalização]”, explicou.

GT Brasil-Reino Unido

Criado para consolidar as prioridades do setor privado brasileiro com potencial de contribuir para a melhoria do ambiente de negócios com o mercado britânico, o GT Brasil-Reino Unido é um mecanismo com a participação de empresas, associações setoriais e entidades empresariais com o interesse ofensivo e defensivo com o Reino Unido.

Compõem o grupo, além da CNI, representantes da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), da Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), da Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados (Abimapi), da Associação Nacional dos Fabricantes de Ração (Abinpet), da Associação Brasileira das Indústrias de Vidro (Abividro), da Associação Brasileira de Proteína Animal (Abpa), da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), da Associação Nacional de Usuários do Transporte de Carga (Anut), da Braskem, da BRF, da Câmara Brasileira da Indústria de Construção (CBIC), do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), da Mega Embalagens Ltda, da União da Indústria de Cana de Açúcar (Única) e da Volkswagen Caminhões e Ônibus.

(*) Com informações da CNI

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