Produtores de vinho da Europa enfrentam “tempestade perfeita”. Efeitos atingirão consumidores brasileiros

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São Paulo – Líderes globais na produção de vinho, França e Itália tiveram em 2021 uma das piores safras da história recente, marcada por temperaturas negativas e geadas em plena primavera, seguidas de chuvas intensas no verão. Como resultado, a produção de vinho franceses e italianos sofreu queda substancial, que somada às restrições de logísticas da pandemia, trará um aumento certo aos preços destes rótulos no Brasil – desde os mais econômicos, até os mais exclusivos.

De acordo com Jean-Charles Godard, francês radicado no Brasil e responsável pelas importações do grupo varejista mineiro Super Nosso, o aumento de preço nos vinhos franceses e italianos deve ser sentido em 2022. “A situação já era complicada com a pandemia e a desvalorização do Real, que estão pressionando os custos de importação em todas as origens”, comenta ele.

“Agora com uma perda enorme de produção na França e em outros países da Europa, esta pressão aumenta, principalmente para os vinhos mais econômicos, em que uma variação pequena de custo já traz uma diferença perceptível no preço que chega ao consumidor”, afirma.

A presidente do grupo World Wine/La Pastina, Juliana La Pastina, traz o mesmo prognóstico. Responsável por uma parcela significativa das importações de vinhos europeus ao Brasil, Juliana conta que o reajuste de preços já foi anunciado por alguns produtores.

A safra 2021 foi marcada pelas geadas durante a primavera, que congelaram e danificaram os brotos de vinhas como esta, na Borgonha / Crédito: Wine Spectator via blog Winext

“Ainda não sabemos exatamente quanto, mas é certo que teremos algum aumento para vinhos europeus que chegarão ao nosso mercado em 2022”, afirma. Juliana acrescenta que a importação de vinhos mais exclusivos está complicada: “conseguimos garantir a nossa importação de Champanhe, mas sabemos que algumas empresas não tiveram o mesmo êxito”.

Umas das safras mais difíceis da história

Depois de perder a liderança global na produção de vinhos para a Itália em 2016, a França será ultrapassada também pela Espanha como resultado da safra 2021. O Ministério da Agricultura francês contabiliza uma queda de 29% na produção de vinho em relação a 2020. Com um total de 33 bilhões de litros, esta é uma das piores temporadas produtivas desde 1945 e os danos são estimados em 2 bilhões de euros para produtores de diversas regiões, incluindo Champanhe, Bordeaux, Borgonha, Beaujolais, Rhône, Loire, Provence e Languedoc.

Os problemas começaram em março, com a chamada “falsa primavera”: ondas de calor ao final do inverno que estimularam a brotação precoce das vinhas. Em abril, vieram as temperaturas negativas acompanhadas de geadas, que instigaram os produtores a acender fogueiras em meio às vinhas na tentativa de mantê-las aquecidas. Em junho e julho, algumas regiões foram atingidas pelas torrentes de chuva, que provocaram a proliferação de doenças fúngicas nos vinhedos.

Em Chablis, assim como em outras regiões atingidas pelas geadas na França, produtores acenderam fogueiras em meio às vinhas na tentativa de mantê-las aquecidas /Crédito: Bloomberg, via blog Winext

Como observa Jean-Baptiste Bourotte-Audy, proprietário das vinícolas bordalesas Clos du Clocher e Château Bonalgue e experiente negociante da região, os invernos franceses têm sido mais quentes na última década de aquecimento global, o que antecipa a brotação das vinhas no mês de março, antes do início da primavera. Entretanto, o risco de geada permanece até maio – o que se concretizou em abril deste ano e devastou entre 20 e 70% da produção nas principais regiões do país.

“Em Bordeaux, esta é a segunda geada severa que temos em 5 anos; antes de 2017, a última ocorreu em 1991”, conta Jean-Baptiste. “Então, sim, é um problema que está acontecendo com mais frequência do que o usual em toda a França”. Segundo ele, o que diferenciou a safra 2021 dos últimos anos foi a elevada umidade durante a primavera e persistência das chuvas até agosto, o que dificultou o controle de doenças fúngicas. “Nos últimos dois anos tivemos verões quentes e secos, o que não aconteceu em 2021 e prejudicou muito a colheita”, detalha.

A região de Champanhe está entre as mais afetadas pelas adversidades climáticas em 2021, com perdas estimadas em 60% da colheita – a pior safra em 40 anos de acordo com o Ministério da Agricultura francês. Uma das mais renomadas casas de champanhe, a Taittinger, perdeu cerca de 40% de sua produção de acordo com o herdeiro e diretor geral da companhia, Clovis Taittinger.

Em algumas regiões, as chuvas intensas foram tão prejudiciais quanto as geadas para a produção de vinho; na Alemanha, as enchentes destruíram vinhedos nas regiões de Ahr e Eifel /Crédito: DW , via blog Winex

“Umidade e chuva não são novidades para nós em Champanhe, que estamos sempre lidando com o problema do míldio”, comenta ele. “Mas o volume de chuvas em 2021 foi excepcional”, explica.

As geadas também atingiram o Norte e Centro da Itália, incluindo áreas produtoras no Piemonte, Vêneto, Emilia-Romagna e Toscana, o que gerou uma queda estimada em 9% na produção total do país de acordo com entidades agrícolas italianas. Na Alemanha, as chuvas de verão causaram enchentes no vale do rio Ahr, que destruíram vinhedos e causaram um prejuízo de cerca de 450 milhões de euros aos produtores locais.

De acordo com a Comissão Europeia, o clima extremo provocou este ano uma queda de 13% na produção total de vinho nos países do bloco em relação a 2020.  Mesmo na Espanha, onde não se observou os mesmos problemas climáticos de França e Itália, a atual safra registrou queda de 15%.

Pandemia complementa tempestade perfeita

As intempéries climáticas vieram se somar a uma série de restrições causadas pela pandemia do Coronavírus. A começar pela escassez global de containers, que provocou um aumento drástico nos custos de logística e no tempo de espera para o transporte marítimo de mercadorias em todo o mundo. Segundo um levantamento da revista The Economist, o frete para um container de 40 pés, que antes da pandemia custava menos de  US$ 2 mil  no mercado spot, chegou a ultrapassar os US$ 10 mil em 2021.

Consequentemente, diversos setores enfrentam o encarecimento e a falta de matéria prima essencial como madeira, papel, metal e vidro. Como relata Jean-Baptiste, no caso das vinícolas europeias, o encarecimento da madeira é um complicador – principalmente para os produtores de alta gama, que estão com dificuldades de obter o material para fabricar as tradicionais caixas em que armazenam os seus vinhos. Ele também menciona o encarecimento de estacas de metal, utilizadas nos vinhedos.

De acordo com o produtor bordalês, a maior parte dos prejuízos causados pela pandemia e pelo clima serão absorvido pelos produtores franceses, pois a competição global impede um repasse significativo ao preço de venda. “Ainda não temos certeza sobre o valor do reajuste, mas deve ser muito limitado”, ressalta ele.

“Em nossas propriedades de Saint-Émilion e Lalande de Pomerol, perdemos cerca de 50% da colheita, e não podemos simplesmente dobrar o valor destes vinhos, pois o mercado jamais aceitaria isso”, conclui.

Clovis Taittinger estima que o encarecimento do champanhe já deve ser sentido em 2022. Porém, ele ressalta que a crescente demanda pela bebida já vinha pressionando este aumento.

“Em Champanhe trabalhamos com um ciclo longo de produção, por isso a atual safra prejudicará o nosso estoque que chegaria ao mercado em 4 anos”, afirma. “Mas o fato é que a demanda por nossos produtos vem subindo muito em todo o mundo, e não conseguimos produzir o suficiente para atendê-la”, conclui.

Fica o alerta: se você quer garantir bons tintos e brancos do Velho Mundo, prepare o seu bolso para as novas safras de vinhos europeus.

(*) Com informações da Winext

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