Relações com os EUA devem ter maior previsibilidade no governo de Joe Biden, avalia AEB

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Da Redação

Brasília –  Com a vitória nas eleições e a posse do democrata Joe Biden no dia 20 de janeiro, o Brasil voltará a ter uma relação de Estado com os Estados Unidos capaz de permitir acordos e facilidades de negociação e  o relacionamento entre os dois países terá uma maior previsibilidade de ações. Esta é a opinião do presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro,  ao analisar as perspectivas para as relações entre os dois países após a derrota de Donald Trump na corrida presidencial americana.

A eleição de Joe Biden deve provocar algumas mudanças no comércio internacional e especificamente nas relações entre o Brasil e os Estados Unidos, sublinha José Augusto de Castro, lembrando que “tradicionalmente se diz que os democratas são mais protecionistas que os republicanos, o que em parte é verdade, mas nada existe por escrito indicando que isso possa acontecer sempre. Nos últimos anos, basicamente notamos que os republicanos, através do governo Trump, adotaram mais medidas protecionistas, mais por uma ação de técnica que por uma ação política e muitas vezes em ações sem nenhuma previsibilidade”.

Para o presidente da AEB, no governo de Joe Biden deverá ocorrer uma maior previsibilidade das ações. Segundo ele, “em seus discursos, o presidente eleito tem enfatizado a questão dos acordos multissetoriais, em detrimento dos acordos bilaterais. Isso favorece indiretamente o Brasil, porque hoje o nosso país, através dos presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, têm uma relação pessoal e não uma relação de Estado e, pelo menos aparentemente, com Joe Biden vamos ter o contrário, restabelecendo-se a relação de Estado, que permite que se tenha acordos e facilidades de negociação”.

Com a posse de Joe Biden deverá haver uma significativa mudança na maneira atual em que se sustenta o relacionamento do Brasil com os Estados Unidos e para o executivo da AEB “com um governo Biden, o Brasil vai ter que rever conceitos atualmente em prática e que não vão mais se aplicar com o novo presidente americano. Novas possibilidades serão criadas mas elas não abrangem a assinatura de um acordo de livre comércio, até mesmo pelo fato de que neste momento o Brasil não tem condições de fazer um acordo comercial com os americanos. Antes de tudo é preciso que o Brasil faça o dever de casa, reduzindo o chamado ‘custo Brasil’ e aprovando reformas estruturais ou através de outras medidas capazes de simplificar e reduzir esse nosso custo”.

José Augusto de Castro vê as questões ambientais como um tema de grande destaque nas relações entre o Brasil e os Estados Unidos no governo de Joe Biden. Segundo ele, “acredito que o tema meio ambiente terá que ser visto sob dois aspectos. Em primeiro lugar, os Estados Unidos muitas vezes vão fazer eco  a sinais emitidos pela União Europeia denunciando infrações ao meio ambiente no Brasil e isso é uma realidade, gostemos ou não. Por outro lado, temos que pensar que os Estados Unidos são nossos concorrentes no agronegócio e muitas vezes uma ação contra o meio ambiente por parte os Estados Unidos em relação ao Brasil acaba gerando um aspecto negativo para os produtos do agronegócio brasileiro e indiretamente proporcionando um aspecto positivo para os produtos americanos. Isso envolve o aspecto comercial e não o diplomático. Acredito que o Brasil vai ter que mudar muito e vamos ter que nos adaptar à nova realidade e, conforme se dizia antigamente, dançar conforme a música”.

O presidente da AEB não tem dúvida de que as críticas ao Brasil devem subir de tom devido à maneira como o governo de Jair Bolsonaro faz a gestão dos temas ligados ao meio ambiente e para ele será necessária uma postura mais agressiva do país em defesa de seus interesses: “temos que divulgar melhor nossos pontos de vistas. Hoje recebemos muitas críticas pelas questões ambientais mas não respondemos diretamente a essas críticas. Pelo contrário, o governo brasileiro tem tergiversado e acaba respondendo de maneira que acaba não contestando ass críticas feitas ao país. Em muitos casos essas críticas embutem aspectos comerciais e envolvem interesses de terceiros países. Com relação aos Estados Unidos pode ocorrer a mesma coisa. Meio ambiente, hoje mais que nunca, é o tema da moda e vai ser um assunto cada vez mais debatido e vamos ter que nos adaptar a essa nova realidade. Nâo adiante dizer que nada do que falam é verdade. Cabe ao governo brasileiro mostrar a sua realidade e quem tiver uma realidade mais concreta, pelo menos teoricamente, vai ter uma maior possibilidade de alcançar êxito na nas atividades em defesa de seus interesses”.

Em sua análise prospectiva sobre as relações entre o Brasil e os Estados Unidos sob o governo de Joe Biden,  José Augusto de Castro lembrou que “o presidente eleito tem uma vivência muito grande em relações internacionais e, além disso, conhece muito bem o Brasil e dependendo da maneira como o governo brasileiro vier a agir, podemos tirar proveito dessa situação”.

Ainda assim, o presidente da AEB reiterou que “é claro qu os Estados Unidos sempre vão ver o Brasil como um concorrente no agronegócio. Um concorrente que tem crescido muito nos últimos anos e a tendência é de que cresça ainda mais. Isso pode fazer com que algumas ações dos Estados Unidos, e especialmente aquelas voltadas para o agronegócio, sejam tomadas mais sob o cunho comercial que sob o prisma diplomático porque, antes de tudo, devo repetir, somos concorrentes dos Estados Unidos no agronegócio. Se querem crescer, se temos a pretensão de sermos grandes no mundo, teremos que enfrentar essa realidade”.

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