Dirigente da UE-CPLP lamenta Comunidade não figurar entre mercados prioritários para o Brasil

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Da Redação

Brasíia –  Um país que tem 32 mercados considerados prioritários para seu comércio exterior, como é o caso do Brasil,  é um país que não tem prioridade nenhuma. Os Estados Unidos, a maior economia mundial, têm apenas quatro parceiros prioritários. E essa falta de prioridade torna-se mais patente quando se observa que a Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP) não figura na relação dos países considerados mercados-alvo  pelo Plano Nacional de Exportações (PNE), lançado em 2015 pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). Só mesmo um país que não tem prioridade, em função de uma estratégia de posicionamento global, seria capaz de abdicar da facilidade que representa fazer negócios em língua portuguesa.

Palestra no Porto - AEP

O raciocínio, que flui de maneira cristalina e serena, é formulado pelo por Gilberto Lima Júnior, Alto Representante para a América Latina e Caribe, de um braço criado pela Confederação Empresarial da CPLP que é a União dos Exportadores da instituição.

Para ele “é preciso compreender imediatamente que existe a necessidade de um reconhecimento por parte do governo brasileiro em termos da prioridade dessa Comunidade que é altamente compradora. São mercados altamente necessitados rigorosamente de tudo, dispostos a pagar o preço que o Brasil tem condiçoes de praticar sobretudo numa situação de câmbio favorável às exportações, carentes que são, por exemplo, da experiência do agronegócio brasileiro, altamente receptivos do pontos de vista cultural. Por tudo isso, é surpreendente que nem mesmo o maior dos países integrantes da CPLP depois do Brasil, que é Portugal, não apareça entre os 38 mercados considerados prioritários pelo governo brasileiro”.

No entendimento de Gilberto Lima Júnior, nada justifica o distanciamento mantido pelo Brasil em relação à CPLP: “lamentavelmente, o Brasil é bastante ausente da realidade que representa a CPLP.  Se o Brasil é cercado de países que falam o espanhol e nós não temos basicamente quase nenhum conhecimento do que acontece em nossa vizinhança, dentro de uma cultura absolutamente integrada, nós também somos literalmente afastados da  CPLP, embora tenhamos uma enorme facilidade do ponto de vista do potencial que representa o idioma comum, a facilidade de comunicar e fazer negócios na língua portuguesa”.

Ao analisar os números do comercio entre o Brasil e os demais membros da CPLP, marcados por uma forte contração tanto das exportações brasileiras quanto das vendas dos demais países do bloco para o Brasil, ainda assim,  Gilberto Lima Júnior mostra-se confiante em que essa retração é passageira.

Para ele,” a queda se dá em função das dificuldades enfrentadas pelas empresas brasileiras e também pelo fato de que muitas das economias da CPLP são petrolíferas e nós assistimos, ao longo dos últimos anos, à mudança de um barril de petróleo que chegou a US$ 140 e despencou para US$ 38. Hoje, os preços internacionais do petróleo estão em recuperação, mas muito longe da cotação atingida no passado. Existe aí uma enorme oportunidade e ela tem a ver com a lição duríssima que esses paíse têm, e eles estão admitindo, que é a obrigatoriedade de diversificar suas economias. Quando falamos em oportunidade não estamos nos referindo apenas às exportações brasileiras. Isso todo o mundo faz. O grande jogo do mundo não é apenas o foco das exportações e sim o foco da globalização. Quantos níveis de posicionamento, de localização, em mercado global, o Brasil  está perdendo, quantas oportunidades, pelo menos dentro da CPLP? Eu diria, muitas. Nos setores de energia, transportes, infraestrutura. Em matéria de agronegócio então, nem se diga. Tudo isto porque não há uma política de indução do país em termos de estrategia. Um país que tem 38 mercados como prioridade é porque não tem prioriade nenhuma”.

Em 2008, o fluxo de comércio do Brasil com os países da CPLP atingiu a cifra de US$ 6,598 bilhões, com um superávit brasileiro de quase US$ 1 bilhão. Ano passado, as trocas caíram drasticamente e somaram pouco mais de US$ 2,981 bilhões. Em 2016, até julho, foram negociados pouco mais de US$ 1,110 bilhão e nem por isso Gilberto Lima Júnior  deixa de mostrar confiança na possibilidade de que o intercâmbio entre os países de língua portuguesa volte a  atingir as cifras registradas no passado recente.

Para ele, voltar ao patamar de 2008 não só é perfeitamente factível como pode, até mesmo, ser ultrapassado. Na ótica daquele que é um dos mais profundos conhecedores das entranhas e peculiaridades do comércio exterior brasileiro: “a grande oportunidade que os países da CPLP representam reside em sua capacidade de importar produtos de alto valor agregado. E nós não podemos nos conformar, como nos conformávamos mesmo naquela época de intercâmbio florescente, em aumentar nossas exportações baseados apenas na venda de commodities. No passado, assim como atualmente, praticamente nos limitamos a exportar produtos básicos e para mudar essa situação precisamos de promoção comercial e estratégia. Quando estávamos em excelentes condições de receitas, de divisas, para canalisar isso para um posicionamento mundial, deixamos de fazê-lo. Ficamos à mercê das commodities. Até quando? Agregar valor pode ser um excelente negócio nos países de língua portuguesa”.

Com mais de vinte anos de experiência em Negócios Internacionais, Gilberto Lima Júnior foi Coordenador de Projetos Internacionais da  Agência Brasileira de Promoção  de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e é um negociador habilidoso, sofisticado e cosmopolita, com atuação global em mais de 50 países. Seu dinamismo, competência e seriedade  profissionais o levaram a criar e presidir a respeitada  consultoria  internacional Going Global Consulting. Além disso, foi nomeado recentemente  Alto Representante para a América Latina e Caribe da União dos Exportadores da CPLP. A União está presente nos nove países da CPLP e abriu representações em Madri e Miami.

Ele lança mão de seus sólidos conhecimentos como agente de primeira linha do comércio brasileiro e internacional para criticar a postura assumida por boa parte do empresariado brasileiro em relação ao mercado internacional. Em seu entendimento, “ É inaceitável que o Brasil, um país de tamahas potencialidades, tenha uma participação que jamais ultrapassou 1,3% de todo o comércio mundial e que este ano venha a ter menos de 1% desse mercado. O grau de comodidade, de comodismo que nós atingimos com este gigante chamado Brasil, dotado de um mercado interno extraordinário, impõe até hoje algumas questões que  são a chamada Síndrome da  Descontinuidade  Eexportadora, a mortalidade exportadora das pequenas empresas. Quando a coisa está boa no mercado interno, abandona-se o mercado externo. Isto não é política país e muito menos representa  visão estratégica”.

O raciocínio pragmático de Gilberto Lima Júnior não poupa os responsáveis, no âmbito governamental, pelo abandono de políticas e iniciativas ainda que bastante exitosos, como  o programa dos biocombustíveis: “o Brasil é um país que quando tem uma política bem direcionada para um determinado foco, como foi o caso dos biocombustíveis, não hesita em abandoná-la em função de algo de novo que apareça, como foi o programa  dos biocombustíveis, praticamente abandonado  em função do pre-sal. Precisamos ter pensadores, estadistas neste país que raciocinem a obrigatoriedade de se pensar globalmente. As nossas leis, as nossas potencialidades mercadológicas são muito atrativas para quem vem de fora mas, definitivamente espero que saibamos aproveitar as potencialidades que se abrem com as Parcerias Públicas Privadas e com o regime de concessões, entre outras iniciativas”.

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