Retrospectiva 2021 – Comércio Exterior

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*Renan Rossi Diez

É tempo de euforia. Um despertar de emoções. Sentimentos plurais e, às vezes, controversos em uma época em que é permitido deixar tudo de lado em prol de momentos alegres, regado a celebrações e festividades.

Desde o início de 2020, quando se evidenciou a pandemia, que ainda persiste em determinar alterações em nossas rotinas particulares, mas também, essencialmente em nossa vida profissional, temos vivido altos e baixos numa montanha russa intensa, longe do mundo da fantasia dos parques de diversão. Essa intensidade promovida pela pandemia é real e cada um de nós teve seu trajeto particular, por vezes, sem controle num carrinho totalmente desgovernado. De fato, controle não é uma palavra sustentável para esse ano de 2021.

No comércio exterior observamos um cenário descontrolado. A alta demanda e a diminuição dos voos, somada a falta de containers no mundo todo, colapsou a logística internacional e os preços explodiram. Apenas a título de exemplo, um único container de origem China e destino Brasil, pré-pandemia era facilmente agenciado por menos de mil dólares. No decorrer deste ano, vimos esse mesmo container ser negociado a quase USS 15.000,00. Um salto gigantesco, mas que não afetou a demanda, ainda há luta para consegui-los.

Vivenciamos a maior crise logística internacional da história. Nunca se pagou tanto e nunca se esperou tanto. Os prazos foram o principal gargalo das empresas que operaram no comércio internacional em 2021.

Portos na China foram fechados por mais de uma vez. Aeroportos em diversas partes do mundo tiverem voos suspensos por período indeterminado. No Brasil, greve dos caminhoneiros, além de outra quase instalada por pilotos e comissários do setor aéreo. Não foi um ano fácil.

No início do ano, muitas empresas optaram por reduzir o quadro de colaboradores, o que se mostrou uma decisão mais próxima do erro do que do acerto. A demanda de serviços aumentou, e muito embora atravessamos uma crise, o cenário é outro. Temos uma crise de oferta, não de demanda.

Por falar em demanda, a demanda mundial por commodities novamente tem trazido um saldo positivo para nossa balança comercial. Em sua projeção mais atual, a Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) estimou um superávit de US$ 70,9 bilhões, resultado de US$ 281 bilhões em exportações e US$ 210,1 bilhões em importações. Nesse cenário, nossa corrente de comércio giraria em torno de US$ 491,1 bilhões.

A alta dos preços das commodities pode ter sido, em números, algo positivo para a balança comercial, porém, não podemos ser frios em análises deste tipo. Números são apenas números quando não sentimos os efeitos na sociedade. Alguns produtos tiveram alta de mais de 100% e o consumidor tem observado na mesa o resultado catastrófico desse aumento. Com a alta do dólar favorecendo as exportações de alimentos, o ciclo dessas operações tem como resultado a redução da oferta no mercado brasileiro, colaborando também para este aumento nos preços. Aliás, enfrentamos um ano em que nosso dinheiro tem comprado cada vez menos, nossa inflação está acima da meta e provavelmente deve fechar o ano acima da grande maioria dos países emergentes.

Enquanto isso, apontadas como prioridades no início do ano, as reformas Administrativa e Tributária continuam sendo atropeladas, ao passo que a sucessão de crises parece adiar eternamente uma pauta urgente e necessária em detrimento de outras necessidades, como a aprovação do fundão eleitoral.

Infelizmente, parece mais simples contornarmos a maior crise logística internacional da história, do que resolvermos nossos problemas internamente. A política continua sendo uma decepção e o cenário futuro parece ainda pior. Enquanto que a maioria dos especialistas projeta um cenário melhor e mais estável no comércio exterior a partir do segundo semestre de 2022, aqui no Brasil, teremos certamente uma das piores eleições de todos os tempos.

Estamos ancorados em um mar de instabilidade política. Nossa burocracia e nosso custo Brasil são um grande empecilho para o desenvolvimento de bons negócios em âmbito nacional e internacional. O comércio exterior pode e deve ser símbolo de crescimento dentro de nossas empresas. Seremos ainda mais fortes quando essa correnteza contrária que vem de dentro do nosso próprio país deixar de interferir e nos permitir navegar em águas mais calmas. Não é pedir muito. Ansiamos todos por melhores retrospectivas.

Não contradizendo o início deste texto, estamos em época em que se permite deixar tudo de lado em prol de momentos alegres, regado a celebrações e festividades. Desejo a todos um feliz natal e um ano novo repleto de esperança para todos nós.

*Renan Rossi Diez é Diretor na Intervip Comércio Exterior; Embaixador do FIE – Fórum de Internacionalização de Empresas e Conselheiro Estratégico no ComexdoBrasil.com

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