Salão do Chocolate de Paris e outras feiras fortalecem networking do setor

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Arnaldo Francisco Cardoso (*)

As feiras setoriais internacionais são vistas como uma importante fonte para o estabelecimento de relacionamentos profissionais (networking) que propiciam o acesso a redes de conhecimento valiosas para a atualização de produtos e processos, bem como para a estratégia de entrada em mercados estrangeiros.

Tendo isso em perspectiva, merece nota a realização da 25ª edição do Salão do Chocolate de Paris, encerrada no último 03 de novembro e que, desde sua criação em 1995, veio se afirmando como um dos mais prestigiados eventos da agenda internacional do setor.

Da 1ª edição do Salão, fruto da iniciativa de Sylvie Douce e François Jeantet, até essa 25ª, não só seus números evoluíram — de 40 expositores e 40 mil visitantes para 250 expositores e 130 mil visitantes — como o próprio setor passou por importantes mudanças e vive um momento em que são crescentes as demandas por melhoria da qualidade e diversidade do chocolate.

Vale lembrar que, desde a criação do Salão, seus organizadores afirmam ser o principal objetivo do evento a promoção de cacau de alta qualidade de diferentes nações produtoras, prestigiando a diversidade genética e sabores de diferentes origens.

Dentre as informações e números gerados pela 25ª edição do evento merecem destaque o recorde de participantes no Programa Cacau de Excelência (CoEx) — Prêmio Internacional de Cacau (ICA) com inscrição de 223 amostras de amêndoas provenientes de 55 países e, também, a origem geográfica dos 20 primeiros colocados, sendo 5 do continente africano, 6 da Ásia, 5 da América Central e Caribe e 4 da América do Sul (Bolívia, Colômbia, Equador e Venezuela). O Brasil teve duas amostras de amêndoas — uma da Bahia e outra do Pará — classificadas entre as 50 melhores do mundo.

Observar a ocupação dos 250 stands do Salão atentando para a nacionalidade das respectivas empresas e instituições também contribui para uma compreensão da distribuição, representação e estratégias de projeção no mercado internacional. Além da maciça presença de expositores franceses — anfitriões do evento — e dos belgas, suiços, italianos e alemães — tradicionais produtores de chocolate — merece destaque a presença de 16 stands da Colômbia, 10 do Peru, 4 do Equador e 2 da Venezuela. Da Ásia, o Japão foi a presença mais marcante com 19 stands; a Indonésia teve 6 e o Vietnã 4 (país que vem ganhando espaço também em outros setores agrícolas, como é o caso do café). Da África, donde provém cerca de 70% de todo o cacau produzido no mundo, os 3 stands da Costa do Marfim e os 5 de Gana representavam o continente junto com os de Togo, Uganda, África do Sul e Gabão.

O Brasil se fez presente com um stand da Missão Empresarial Brasileira “Cacau do Brasil” — criada em 2008 e apoiada especialmente pelos governos estaduais da Bahia e Pará — reunindo 40 produtores de cacau e chocolate.

Marco Lessa, empresário e coordenador da missão brasileira, em recente publicação no Portal do Agronegócio sobre a participação de produtores brasileiros no Salão do Chocolate avaliou que “o objetivo principal é ampliar a participação do Brasil no mercado internacional de amêndoas de cacau fino e de chocolate de origem com condições de ser exportado, impactando em um número cada vez maior de produtores brasileiros, além de aprimoramento e capacitação dos nossos empresários do setor de chocolate”.

Concordando com Lessa, são muitos os potenciais benefícios da participação de empresários e demais profissionais de um setor em feiras internacionais. Entretanto, é justamente dessa participação que fluem uma série de questões que demandam uma análise individualizada, por perfil de empresa, condizente com seu plano de negócios e objetivos, para um melhor aproveitamento desses eventos.

No caso do Salão do Chocolate de Paris, a forte presença de grandes indústrias do setor como expositores e influenciadores privilegiados nos processos de formulação de regras e demais parâmetros para relações comerciais (como volumes mínimos para contratos) é vista por muitos pequenos e médios produtores como conflitante com a proposta de segmentos como o bean-to-bar e o de chocolate de origem. Estes últimos em suas concepções originais visam se distinguir em termos da dinâmica dos produtores inseridos nas cadeias globais de valor e de fornecimento que se orientam pela maximização de recursos e padronização de processos visando essencialmente ganhos de produtividade e competitividade.

Oferecer ao mercado um chocolate de alta qualidade, com informações sobre a origem das matérias-primas, suas variedades e manejos, bem como comprometido com os princípios de sustentabilidade ambiental e social não é tarefa simples e a possibilidade de compatibilização com a grande escala de produção tem se mostrado como um verdadeiro “enigma da esfinge”.

É nesse contexto que tem ganhado força as feiras nacionais do setor, como o Festival Chocolat Amazônia 2019, recentemente ocorrido em Belém (PA), assim como o Festival Chocolat São Paulo (também sob a batuta de Marco Lessa) que, em abril passado, ocupou o pavilhão da bienal no Ibirapuera, em São Paulo, se afirmando no calendário oficial do setor.

O que de mais importante deve ser destacado é que, seja em feiras no país, seja no exterior, o crescente interesse de produtores e demais profissionais do setor do cacau-chocolate em compartilhar suas experiências, expandir sua rede de relacionamentos e seus negócios é parte fundamental na evolução do setor e sinal de sua vitalidade.

(*) Arnaldo Francisco Cardoso é pesquisador e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie Alphaville. Atua nas áreas de Comércio Exterior e Negócios Internacionais.

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