Uma ameaça ao comércio internacional

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Hamad Buamim(*)

De 12 a 14 de junho, mais de 1 mil lideres de Câmaras de Comércio que representam 45 milhões de empresas de cerca de 100 países se reuniram no maior encontro mundial de negócios comerciais. O World Chambers Congress, no Rio de Janeiro, teve uma agenda repleta de discussões relevantes para o comércio global, como o protecionismo, o impacto da revolução digital, as micro e pequenas empresas e o e-commerce.

Entretanto, a Federação Mundial das Câmaras de Comércio (ICC-WCF) incluiu nas discussões, de forma imperativa, outro tema bastante relevante e que aparentemente não tem relação direta com o setor: as mudanças climáticas. A ICC-WCF fez um apelo para que os delegados de todos os países assinem um compromisso formal de suas entidades com o combate às mudanças climáticas.

Temos o claro entendimento, reforçado por estudos científicos internacionais, de que os efeitos atmosféricos das contínuas emissões de gases de efeito estufa levarão a mudanças no sistema climático, como o derretimento das geleiras polares, a elevação do nível do mar e o aumento da onda de calor, entre outros.

Os impactos dessas mudanças terão consequências significativas em todas as regiões do mundo, provocando grandes alterações na produção e no consumo de produtos e serviços. O impacto direto e indireto no comércio internacional é inevitável e expressivo. Todos os fatores de produção serão afetados: a terra, o trabalho e o capital. Atuais líderes em seu segmento econômico poderão perder suas vantagens competitivas. As cadeias de transporte e distribuição deverão ser bastante atingidas: o aumento do nível do mar e condições climáticas extremas põem em risco os portos, fundamentais na infraestrutura de distribuição do comércio.

A agricultura, um setor chave do comércio internacional, é uma das mais vulneráveis às mudanças climáticas. Dependendo do local, a produção agrícola deverá ser fortemente afetada pela escassez de água, provocada por derretimento de geleiras, redução das chuvas e aumento da seca.

Outro segmento em risco é o de Turismo, particularmente vulnerável às mudanças climáticas, devido às alterações na cobertura de neve, degradação da costa marinha e condições meteorológicas extremas. A indústria pesqueira, por sua vez, está ameaçada pela alteração de ecossistemas, com a extinção de corais e a perda da biodiversidade marinha.

De nosso lado, temos que reconhecer que o crescimento do comércio internacional nos últimos anos impactou o meio ambiente e contribuiu para o aquecimento global. Por exemplo, o transporte de carga entre países, essencial para as exportações e importações, vem elevando as emissões dos gases de efeito estufa.

A ICC-WCF decidiu tomar uma atitude relevante diante desse cenário. Acreditamos que somente uma atitude global integrada poderá evitar que as mudanças climáticas impactem de forma dramática as condições necessárias para o contínuo desenvolvimento do comércio mundial – que tem papel fundamental para o crescimento econômico de todas as nações.

Os esforços internacionais para mitigação do problema estão relativamente bem definidos e há considerável informação disponível sobre as oportunidades e custos associados à redução das emissões de gases de efeito estufa. Um avanço considerável foi alcançado na consecução das metas estabelecidas no Acordo de Paris Sobre o Clima – um tratado histórico que os Emirados Árabes Unidos se orgulharam de ratificar em 2016.

Estudos concluíram que até metas ambiciosas de emissão podem ser alcançadas através do uso de tecnologias e práticas já existentes. Por exemplo, transportes energeticamente eficientes; edifícios e plantas industriais ecológicos; tecnologias de energia com zero ou baixo teor de carbono; redução do desmatamento; aperfeiçoamento das práticas de manejo da terra e da agricultura; e melhoria da gestão de resíduos.

Ou seja, já sabemos o que precisa ser feito. Para começar, mudar a matriz energética para combustíveis não fósseis e de baixa emissão de carbono. O setor de energias renováveis já emprega milhões de pessoas mundo afora e continua em expansão, com seu custo caindo rapidamente, representando várias oportunidades de negócios para todos os países.

Também é preciso integrar esforços com outras instituições do setor, como a Organização Mundial de Comércio (OMC). Acordos comerciais regionais e bilaterais precisam contemplar cláusulas que promovam a mitigação dos efeitos climáticos. E, ao mesmo tempo, é importante reforçar o comércio com países emergentes que produzem produtos de tecnologia limpa, de baixo impacto ambiental.

Várias são as iniciativas que, feitas de forma integrada, nos permitirão atingir a meta de, até 2050, limitar o aquecimento global em 1,5 graus Celsius e reduzir a zero as emissões de gás de efeito estufa. Esse é o nosso compromisso.

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